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domingo, 17 de novembro de 2013

30 fatos que marcaram a época de Sun Tzu

Snoopy escritor, improvável inspiração -- via Peregrinacultural Weblog
Quando agente lê um livro ou mesmo assiste a um filme, nem imagina o trabalho que dão para ser escritos. Bem, pelo menos nos casos em que o autor resolve proporcionar um mínimo de embasamento à sua imaginação insana, como são as obras do best seller Dan Brown (O Código da Vinci, Anjos e Demônios, etc). Preparando-me para escrever meu primeiro livro, agora eu não apenas imagino, tenho certeza. 

Não sei se estou fazendo acoisa certa -- nem se há uma coisa certa a fazer quando se trata de escrever um livro --, mas fato é que estou tendo um trabalho danado de pesquisa. O livro será um romance histórico, inspirado na vida e obra de Sun Tzu, general chinês que teria vivido há uns 2,5 mil anos e é o reputado autor d'A Arte da Guerra.
 
Para tentar capturar o máximo possível de informações sobre ele e sua época, já devo ter lido material suficiente para um mestrado, de modo que passa da hora de organizar esta bagunça. E é isso que pretendo fazer ao longo de diversos textos que passarei a publicar daqui por diante. 

O plano é mais ou menos o seguinte:
  1. escrever uma cronologia da época, com o maior número de detalhes possível
  2. relacionar os personagens, suas características e histórias pessoais
  3. relacionar os principais estados envolvidos, com um resumo de sua história e características
  4. escrever o enredo (depois de definir qual será, obviamente) e
  5. juntar tudo
Neste momento, vou apresentar uma cronologia básica, compreendendo principalmente a segunda metade do Período da Primavera e Outono. Em textos subsequentes, devo apresentar alguns dos principais personagens e estados envolvidos. Quanto ao enredo e ao "juntar tudo", você provavelmente vai ficar sabendo quando o livro estiver pronto, embora eu possa deixar algumas pistas por aí. Quem sabe até um trecho ou outro do que eu escrever... mas isso é coisa para depois, agora vamos ao interessa.

Antes, no entanto, algumas observações: 1) esta primeira versão foi baseada exclusivamente na tradução d'A Arte da Guerra feita para o inglês por Ralph Sawyer, e em suas respectivas anotações; 2) quando me refiro a estado, imagine um país qualquer da Europa feudal, com o rei e seus vassalos e o território dominado por eles (território dos vassalos = estado; rei = dinasta); 3) no período em questão, o chefe da dinastia Chou possuía um poder tão somente simbólico, ficando o poder de fato nas mãos do vassalo mais poderoso, chamado hegemônico.

Cronologia antes de Sun Tzu
Séc. VII AEC - o estado de Ch'u torna-se militarmente ativo e subjuga outros estados menores, como Ts'ai, Shen e Cheng.

685 AEC - início do reinado de Duque Huan, de Ch'i; ele viria a se tornar o primeiro hegemônico da dinastia Chou do Leste e seu governo segue até o ano de 634 AEC.

632 AEC - os estados aliados Sung, Chin, Ch'i e Ch'in derrotam Ch'u na famosa batalha de Ch'eng-P'u (neste ano, o território total de Ch'u já cobria mil li).

Início do séc. VI AEC - o estado de Chin formara "seis exércitos", usurpando uma prerrogativa Real dos Chou, aclamando-se hegemônico (os que detinham poder de fato, já que os Chou o possuíam apenas nominalmente).

585 AEC - Shou-meng torna-se o primeiro governante de Wu a assumir o título de Rei.

- Wu monta uma campanha que atravessa mil li,  para atacar e derrotar o pequeno estado de T'an, demonstrando seu crescente poder.

584 AEC - Chin envia Wu-Ch'en, duque de Shen, com 9 carruagens e 125 guerreiros e oficiais, a Wu; o objetivo expresso era apresentar a este último a carruagem e instruí-los nas técnicas de combate em solo dos Estados do norte.

- Wu monta seu primeiro ataque preventivo contra um subordinado de Ch'u, o Estado de Hsü -- doravante, durante as próximas 6 décadas haveria confrontos freqüentes entre Wu e Ch'u, enquanto ambos aspiravam a dominar a região.

576 AEC - Wu recebe reconhecimento formal de Chou.

575 AEC - Chin derrota novamente Ch'u.

544 AEC - nascimento de Sun Tzu.

541 AEC - o comandante de Chin fez com que suas forças de carruagens desmontassem e travassem batalha, como forças de  infantaria, contra soldados "bárbaros" que lutavam a pé.

538 AEC - por conta da crescente agressividade de Wu, Ch'u passa a empreender grandes construções defensivas, inclusive cidades amuralhadas e fortificações diversas.

537 AEC - Ch'u é derrotado após montar um ataque em larga escala contra Wu, em conjunto com vários estados subalternos e contando com o apoio de Yüeh; o conflito marca o primeiro confronto entre Wu e Yüeh.

521 AEC - Wu trava batalha com o estado setentrional de Ch'i, sofrendo uma perda temporária de dois exércitos.

519 AEC - é travada a famosa batalha de Chi-fu, última grande entre Ch'u e Wu antes de Sun Tzu iniciar suas atividades militares neste último (pouco depois desta batalha,  Wu Tzu-hsü é forçado a emigrar de Ch'u para Wu,  devido às maquinações de Fei Wu-chi).

514 AEC - Ho-lü ascende ao trono de Wu e muda sua capital para Su-ku.

Cronologia depois de Sun Tzu
512/511 AEC - início das atividades militares de Sun Tzu, de acordo com os registros históricos tradicionais (entrevista com o rei Ho-lü e treinamento de suas concubinas).

- início de campanhas praticamente anuais de Wu contra Ch'u.

- Wu lança um ataque vitorioso a Shu, Estado pertencente a Ch'u.

510 AEC - Wu realiza sua primeira investida contra Yüeh.

509 AEC - Ch'u decide tentar um ataque contra Wu,  apenas para se ver derrotado e perder diversas cidades.

- o primeiro ministro de Ch'u, Nang Wa, aprisiona os regentes de Ts'ai e T'ang.

506/504 AEC - nova batalha entre Wu e Ch'u,  desta vez resultando em vitória deste último e na retirada do rei de Wu de volta a seu estado.

- os regentes de Ts'ai e T'ang são libertos, devido a pressões diplomáticas de Estados aliados a Ch'u, especialmente Chin; durante o retorno para casa, num ato de vingança, o marquês de Ts'ai ataca o estado de Shen e assassina seu regente (Wu ganha aliados no coração dos domínios de Ch'u).

- após uma série de ataques, Wu finalmente invade a capital de Ch'u, Ying, com o apoio de seus novos aliados, Ts'ai e T'ang.

- Ho-lü permanece em Ying, enquanto Fu-kai, seu irmão mais novo, volta a Wu e se proclama rei.

- ao saber disso, Ho-lü retorna a Wu e monta um ataque repentino e vitorioso contra Fu-kai, que foge para Ch'u, onde é recebido como aliado.

- o rei de Ch'u, Chao, aproveita-se da situação, retorna à capital Ying e orquestra um ataque vitorioso contra Wu, forçando Ho-lü a retornar para Wu (ainda não consegui descobrir se após derrotar Fu-kai Ho-lü volta a Ying ou se a batalha é travada fora dos limites de Wu, mais provável algo parecido com este último -- fico devendo esta).

- em um ataque coordenado por Fu-ch'ai, herdeiro de Ho-lü, e pelo rei em pessoa,  [a cidade? de] P'a é tomada por Wu, forçando Ch'u a mudar sua capital de Ying para Jo (também estou por descobrir, ou decidir, se P'a é uma cidade ou uma pessoa).

- após a conquista da capital de Ch'u, Ying, não há mais registros históricos sobre Sun Tzu, embora estudiosos acreditem que ele tenha permanecido em atividade em Wu até o ano 496 ou 482 AEC.

500 AEC - Confúcio torna-se ministro do estado de Lu.

496 AEC - morte provável de Sun Tzu.

Para concluir, informo que estes são apenas alguns dos principais eventos do período e são focados principalmente nos estados de Wu e Ch'u por razões quase óbvias. Ainda acrescentarei outros marcos, incluirei zilhões de detalhes, enxertarei os personagens, o enredo e a, finalmente, literatura.

Ao final, espero, sairá algo que vale a pena ler. Ciao!



    quarta-feira, 16 de outubro de 2013

    A China antes da China

    Mais ou menos assim era a China de Sun Tzu -- via Wikipedia

    Agora que fiz um apanhado geral dos treze capítulos d'A Arte da Guerra, vou passar a publicar aqui um monte de textos sobre o que tenho pesquisado da China antiga. Muito deste material será usado no livro e, alguma coisa, até de forma literal (de modo que peço muito gentilmente para você não ficar chateado se, quando estiver lendo o livro, tiver uma leve sensação de déjà vu).

    Para início de conversa, é necessário esclarecer um ponto importantíssimo: a China que a gente acha que era China quando Sun Tzu era vivo, na verdade, não era China. Explico: até o ano 221 BCE existia ali naquela região muitos pequenos Estados, bem ao estilo Europa feudal, que por acaso tinham alguns traços étnicos e culturais em comum.

    Ou seja, havia um monte de pequenas Chinas onde hoje é um pedaço da grande China, que ninguém na época chamava assim. E o que aconteceu em 221 que, mais uma vez, alterou os rumos da história? Bem, um dos estados mais poderosos de então, Qin, conseguiu dominar politica e militarmente todos os outros, unificando pela primeira vez os reinos considerados civilizados sob um único estandarte -- se bem que esse império nascente compreendia apenas uma parte do atual território da China.

    A cronologia até a unificação é mais ou menos a seguinte:

    • Período Neolítico: cerca de (ca.) 6000 a ca. 1750 AEC
    • Período Erlitou: ca. 1750 a ca. 1500 AEC (ainda há dúvidas se fazia parte da Dinastia Shang ou não)
    • Dinastia Shang: ca. 1500 a ca. 1050 AEC
    •      Período Erligang: ca. 1500 a ca. 1300 AEC
    •      Período Anyang: ca. 1300 a ca. 1050 AEC
    • Dinastia Zhou (ou Chou) do Oeste: ca. 1050 a 771 AEC
    • Dinastia Zhou (ou Chou) do Leste: 771 a 221 AEC
    •      Período da Primavera e Outono: 771 a 475 AEC
    •      Período dos Estados Combatentes: 475 a 221 AEC
    Veja que as datas situadas entre o período Neolítico e o início da dinastia Zhou são aproximadas, já que ainda há muitas incertezas arqueológicas, e os textos históricos não são lá muito confiáveis. Note também que a Dinastia Zhou do Leste é subdividida em dois períodos: Primavera e Outono e Estados (ou Reinos) Combatentes.

    Flores despertas e folhas cadentes
    Se "o" Sun Tzu existiu mesmo, e se os poucos antigos textos que o citam estão corretos, ele nasceu, viveu e morreu no Período da Primavera e Outono, mais (quase) precisamente entre 544  AEC (nascimento) e 496 AEC (morte). Ou seja, (independente da acuracidade histórica) a história que escrevo se passará principalmente neste período, que nada mais é do que a primeira parte da dinastia Zhou do Leste.

    A diferença entre esta e a do Oeste, que é anterior (dá pra ver na cronologia acima), diz respeito a duas questões:

    • a primeira, que marca a nomenclatura, é a mudança da capital da dinastia da região Oeste (Chang'an ou Xi'an) da então "China" para a região leste (Luoyang, o que é quase óbvio, não?)
    • a segunda, que está intrinsecamente ligada à primeira, trata do poder efetivo do dinasta: no primeiro período, o do Leste, tal poder era fato; no segundo, apenas nominal, já que a mudança de capital, por conta de um ataque bem sucedido, foi realizada com a ajuda dos vassalos, que passaram a alternar o governo do "mundo civilizado" em nome do "rei".
    Também foi durante o Período da Primavera e Outono que viveu um dos maiores ícones da China, Kung Fu Tzu, que você provavelmente conhece como Confúcio (em inglês, Confucius). Note que seu nome no original também tem a mesma partícula do nome de nosso personagem: Tzu (cuja pronúncia assemelha-se a "zi". A explicação é simples: Tzu não é um nome, e sim uma espécie de título, que pode significar nada menos que "mestre". Por isso que, em muitos textos sobre Sun Tzu, os caras fazem referência a ele como "mestre Sun", ou simplesmente "mestre".

    Uma dificuldade que tenho nas minhas pesquisas sobre este período, além do fato de haver fortes evidências de que "o" Sun Tzu não existiu e de que o livro atribuído a ele foi escrito após seu suposto tempo de vida, é a pouca informação disponível na internet sobre justamente o Período da Primavera e Outono. Nem os livros chineses antigos sobre este período consigo encontrar na rede.

    Um exemplo, são os anais supostamente escritos por Confúcio, que deram nome ao primeiro período da dinastia Zhou do Leste (Anais da Primavera e Outono, ou Chunqiu em chinês) e que contam a história de Lu, Estado onde ele teria nascido e vivido. Claro que não trato isso como um impedimento. É mais um desafio que, se não for vencido, será outro caso que se enquadra naquela famosa frase do não menos famoso Albert Einstein:

    A imaginação é mais importante que o conhecimento.

    (E longe de mim querer ser comparado a um Jules Verne ou Isaac Asimov. Eu, hein!)