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domingo, 3 de novembro de 2013

Gladiador e local de morte

"...coloque [os soldados] no terreno da morte e eles lutarão. O resultado será a conversão de uma derrota certa em uma vitória inesperada."

E aí, vai encarar? Arte de Alex Nazato, via Studio Canvas
Um dos conceitos mais interessantes, e também cruéis, apresentados no livro A Arte da Guerra é o de lugar (ou local) de morte (ou mortífero, ou mortal). Sem meias palavras,  no capítulo XI (Os Nove Territórios) Sun Tzu venenosamente destila o conselho de  situar as tropas num território mortal,  "para que elas não tenham saída e lutem ferozmente"

Claro que isso vai depender das dependências, mas a idea básica permanece: se houver necessidade, joga os soldados na cova dos leões e deixa a taboca rachar. Provavelmente eles vão pensar algo do tipo: "eu já estou morto mesmo, então vou levar uns quinze nazistas safados comigo e causar muito estrago".

Conscientemente ou não, Hollywood tem se mostrado extremamente capaz de apresentar situações deste tipo. Invasões alienígenas são um clássico exemplo; filmes catástrofe também; quando ambos os temas se juntam num só filme, aí estamos falando de uma história do Roland Emmerich com Will Smith no papel principal (ou algo muito parecido com isso).

No entanto, gostaria de fazer referência aqui a dois que me agradam deveras mais que este aí em cima: 300 e Gladiador. Não coincidentemente, filmes que, bem ou mal, retratam momentos interessantes de duas grandes e antigas nações que já podiam receber a alcunha de potências quando Sun Tzu ainda nem sabia o que era guerra, ou estarei eu escrevendo besteira? (por favor, não responda...)

Pão e circo
Gladiador conta a história de um general romano, Maximus, que é traído pelo filho do falecido Cesar e, após as idas e vindas cinematográficas de praxe, acaba se tornando um gladiador, "condenado" a lutar no famoso, famigerado e fatídico Coliseu. Vamos combinar que poucas coisas no mundo poderiam representar o lugar de morte de que fala Sun Tzu tão bem quanto a grandiosa arena.

Se não, vejamos:
  • você pega um punhado de caras marombados, mas (teoricamente) sem preparo militar
  • joga num lugar fechado (de onde não há como escapar) e 
  • bota eles pra lutar contra feras mortíferas e soldados altamente preparados e equipados. 
Tirando as feras mortíferas, quem você acha que vai lutar com mais gana e vontade: os soldados romanos relaxados e confiantes na vitória certa ou os bárbaros maltrapilhos conscientes de que estão no lucro só por ainda estarem de pé?
No caso do filme, junte a isto o elemento surpresa (ex-general romano sagaz "comandando" os párias da arena) e voilá! Acabamos de converter "uma derrota certa em uma vitória inesperada".

Lutando no escuro
Em 300, filme baseado na obra do mestre Frank Miller (por sua vez inspirada em fatos históricos), uma tropa com 300 soldados de elite do rei Leônidas de Esparta marcha rumo às Termópilas, a fim de colaborar com outros 6,7 mil guerreiros. O objetivo? Nada menos que defender a Grécia de um ataque de 300 mil persas comandados por Xerxes. O próprio Leônidas lidera os trezentos, e os gregos são dispostos de tal modo que eles só têm duas opções: lutar e morrer ou lutar e morrer

Neste caso, eles não se deram lá muito bem, muito por conta de dois fatores:
  • as forças persas eram extraordinariamente superiores, numérica e belicamente , e
  • os gregos ignoraram diversos outros preceitos importantes d'A Arte da Guerra
No entanto, antes de serem dizimados, foram capazes de despachar uma penca parruda de persas para as profundezas do bom e velho Hades. No mais, tudo isso e outras coisitas abordadas por Sun Tzu tem a ver com um negócio chamado ch'i, mas isto já é assunto para outro post. Hasta!



quarta-feira, 17 de julho de 2013

Os Nove Territórios -- Capítulo XI do livro A Arte da Guerra

Uma operação militar deve ser como uma cobra veloz, que quando tocada na cabeça ataca com a cauda; quando tocada na cauda, ataca com a cabeça e quando é tocada no meio, ataca com a cabeça e com a cauda.
Seria isso um território de fronteira? Via Caiman (Helder Brandão)
Gente, confesso que se A Arte da Guerra fosse uma dissertação de mestrado e eu, o orientador do Sun Tzu, já teria perdido a paciência com o cara. Mais uma vez, ele me começa bem um capítulo e, sem mais nem menos, envereda por caminhos completamente alheios ao proposto.

Obviamente, é o caso deste capítulo, que pode ser dividido em pelo menos duas partes: na primeira, se discutem, de fato, os nove territórios do título; na segunda, voltam à ribalta diversos conceitos já analisados anteriormente. A conversa sobre territórios, embora apresente alguns elementos da discussão sobre terrenos, trata de um conceito mais amplo. No entanto, assim como o capítulo anterior, nos brinda com uma relação objetiva.

Temos, pois, os territórios disperso, de fronteira, chave, aberto, de intersecção, perigoso, difícil, cercado e mortal. Sun Tzu explica:
  1. Disperso - onde os grupos locais lutam entre si
  2. De fronteira - no qual se penetra, mas não muito
  3. Chave - igualmente vantajoso para ambos os lados
  4. Aberto - onde todos entram e saem como desejado
  5. De intersecção - um Estado cercado por outros três inimigos, que confere a "vantagem celeste" a quem dele se apoderar
  6. Perigoso - no qual se penetra fundo em terras estranhas, deixando muitas vilas inimigas para trás Cercado - apertado e sinuoso, no qual uma pequena tropa inimiga, mesmo estando em inferioridade, pode atacar
  7. Mortal - onde um exército sobrevive apenas se lutar desesperadamente
Claro, também nos é dado saber como nos portarmos em relação a cada tipo de território. Nas palavras do próprio mestre:
Não lute em territórios dispersos; não pare em territórios de fronteira; não ataque um território chave; não interfira em territórios abertos; em territórios de intersecção, faça alianças; em território perigoso, saqueie; em território difícil seja rápido; em territórios cercados faça planos; em territórios mortais, lute.

Locais de morte, ou mortais, ou mortíferos...
Do que foi dito acima, um conceito parece destacar-se no que se refere a territórios ou terrenos: o de local mortífero. Tanto que, em mais dois momentos neste capítulo, tais tipos de lugar são referenciados.

No primeiro, aparentemente no contexto de levar a cabo uma invasão, o conselho é situar as tropas num território mortal,  "para que elas não tenham saída e lutem ferozmente". Assim, os "guerreiros darão o melhor de suas forças", farão o impossível diante do inesperado, "não temerão o perigo, e ficarão firmes".  Em outras palavras, por não ter opção, lutarão até a morte.

O segundo momento surge quando se fala no comando das tropas, em fazer com "que o exército seja como um só homem". Entre outras iniciativas, deve-se usar os soldados para "conseguir vantagens sem lhes revelar os perigos; (...) coloque-os no terreno da morte e eles lutarão". O resultado será a conversão de uma derrota certa em uma vitória inesperada.

Ainda sobre essa questão, são abordadas claramente as consequências de se colocar o exército em tal situação:
Com um exército assim,  poucas regras são necessárias. Não é preciso ordenar aos soldados que sejam vigilantes. O general tem o seu apoio sem pedir; tem sua dedicação, sem a exigir; tem sua lealdade e amizade espontaneamente.
O outro lado da moeda seria a provocação, por parte do general, de situações semelhantes a se colocar o exército em locais de morte. Exemplo disso ocorre quando, ao marcar a data da campanha, corta-se o regresso das tropas, "tal como se tira uma escada debaixo dos pés".

Às luzes da ribalta
O restante do capítulo apresenta alguns novos conselhos e, como já disse, trás de volta à luz outros já discutidos em momentos anteriores. Um exemplo eloquente assegura que bons estrategistas devem fazer com que o inimigo perca contato entre a vanguarda e a retaguarda, a confiança entre os pequenos e os grandes, a mútua cooperação e o entendimento entre subalternos e oficiais.

Também trata da questão da velocidade (já discutida aqui), da proibição de oráculos,  administração das tensões, adaptação constante, mais qualidades do general, necessidade de frustrar (inclusive por meio do engodo) e conhecer os planos do inimigo, entre outras coisitas deveras úteis.

Como podemos perceber, o palco da guerra está quase armado e a hora da estreia se aproxima a passos (não tão) largos. Mesmo assim, que rufem os tambores!



Texto anterior - O Terreno -- Capítulo X do livro A Arte da Guerra