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domingo, 16 de junho de 2013

O Terreno -- Capítulo X do livro A Arte da Guerra

Quem conhece a si mesmo e conhece o inimigo, pode garantir a vitória; quem conhece o tempo e o terreno, a alcançará de modo absoluto.
É, o inimigo não ocupou o terreno inteiramente. Vou seguir! - via Alemarcolino's Weblog 
Então, o capítulo X d'A Arte da Guerra até que começa bem. O título do bicho tem tudo a ver com os tipos de terrenos que recebem uma classificação de Sun Tzu:
  1. Acessível, quando é fácil se deslocar
  2. Tortuoso, quando é fácil de sair, mas difícil de entrar
  3. Indeciso, quando é desvantajoso para ambos;
  4. Apertado, quando é estreito
  5. Acidentado, quando é ruim
  6. Distante, quando é largo
Sun Tzu também trata esta classificação como as "seis condições sobre os terrenos", que devem ser examinadas com cuidado pelo general. Diz ainda como se portar em cada um destes terrenos:
  • No acessível, a fim de se obter vantagem sobre as linhas do inimigo, assumir posição nele antes do adversário, na parte alta e ensolarada
  • No tortuoso, simplesmente evitá-lo, pois apesar de ser possível vencer o inimigo "com um simples golpe", caso ele esteja despreparado, seu exército estará em perigo, caso não vença
  • No indeciso, deve-se recusar vantagens oferecidas pelo inimigo, pois tratam-se de armadilhas; "retire-se, atraia-o, e então ataque"
  • No apertado, ocupá-lo todo, se chegar primeiro; caso contrário, não seguir o inimigo, a não ser que ele não o ocupe inteiramente
  • No acidentado, se o inimigo ainda não tiver ocupado o lugar mais alto e ensolarado, é o que se deve fazer, caso contrário, retirar-se e não segui-lo
  • No distante, não é favorável lutar, nem atacar o inimigo, caso suas forças sejam equivalentes
Ainda sobre os terrenos, Sun Tzu deixa clara a necessidade de se dominar o assunto:
A conformação do terreno é de vital importância na batalha. Estude o inimigo, meça corretamente as distâncias, avalie as dificuldades e perigos. Quem faz esses cálculos vence; quem não faz, perde.
O bom general e as seis condições
Claro que o estilo Sun Tzu de literatura não permite que, num capítulo intitulado "O Terreno", o único assunto abordado seja este. Como sempre, ele dá um jeitinho de falar de outras coisas necessárias ao cabedal do "bom general", com o perdão da rima inapropriada.
Engata, então, na sequência, seis condições que devem ser atentamente estudadas e que levam um general à derrota. Elas dizem respeito a:
  1. Diferenças de força significativas entre os exércitos
  2. Soldados fortes e oficiais fracos (insubordinação)
  3. Oficiais corajosos e soldados fracos (exército preguiçoso)
  4. Oficiais motivados por raiva e soldados inconsequentes (exército negligente)
  5. General fraco, sem moral e com regras confusas (exército confuso)
  6. General imprevidente, que não se prepara devidamente para a batalha (derrota)
Adicionalmente reflete sobre o relacionamento do general com os próprios soldados e sobre as chances de vitória baseadas em determinados conhecimentos (vulnerabilidade do inimigo, capacidade das próprias tropas, terreno e leis da guerra). Também retoma outro tema já tratado anteriormente: a ideia de, nos assuntos de guerra, ignorar as determinações do governante:
Quando as leis da guerra apontam para a vitória, conquiste-a, mesmo que o governante não autorize. Quando as leis da guerra indicam a derrota, não o faça, mesmo que o governante tenha ordenado.
Avançar sem desejar glória, recuar sem temer os castigos, proteger o povo, cuidar do soberano. Esta parece ser a "joia da coroa", em se tratando de generais. Desde que, obviamente, se tenha noção do que está acontecendo, capicci?


Texto anterior - Sobre a Movimentação -- Capítulo IX do livro A Arte da Guerra

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Arte da Guerra na literatura de cordel

Mais ou menos quando decidi escrever o livro -- uns bons 2 ou 3 anos depois que tive a ideia -- comentei com um amigo, que me sugeriu fazer algo com cordel.

Xilogravura (digital) de Paulo Brabo - via Bacia das Almas

Minha primeira reação foi de nem-de-jeito-nenhum, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Mas a ideia, em sentido amplo, é uma coisa engraçada, e depois que uma é "implantada" em sua cabeça é difícil tirar a dita cuja dali.

Ainda acho que não é o caso de, vamos assim dizer, integrar cordel à história, no próprio livro. Mas confesso que fiquei refletindo sobre como aproveitar a ideia que, de todo, é até interessante. Não precisei fazer nada, por enquanto. Descobri um vídeo no Youtube com um professor declamando um cordel relativo ao capítulo IX do livro -- Da Importância da Geografia.

Ficou simplesmente genial e bem aderente às ideias ali apresentadas. Teve alguns trechos que não consegui entender direito e um que não consegui entender de jeito nenhum, mas fiz a decupagem -- não consegui encontrar o texto na rede -- e você pode ler aí (é, no mínimo, divertido):

Cordel do general invencível
O General Sun Tzu foi um militar famoso
Orientando os soldados num momento perigoso
Aconselhando a todos, do covarde ao corajoso
Ao passar pela montanha, queria recomendar
Um vale muito tranquilo para toda a tropa acampar
Pois, depois de muita marcha, melhor é descansar
Evitar subir os montes para o inimigo enfrentar
É melhor ficar em baixo, com vontade  de ganhar
Só briga lá na montanha bicho que sabe voar
Se perto tiver um rio, acampe mais afastado
Quem briga na água é peixe, soldado morre afogado
Espere na terra firme e dê um golpe arrojado
Para atravessar um pântano, procure passar ligeiro
Seja salgado ou insosso, o terreno é traiçoeiro
Ganha muita vantagem quem atravessar primeiro
Proteja-se com a floresta, não na lama pegajosa
O inimigo atolado é presa muito manhosa
Mas ele vai sucumbir na derrota fragorosa
Para brigar na planície ponha o seu flanco direito
De costa para a colina, um terreno sem defeito
Deixe o ruim para o inimigo, o seu lugar é perfeito
O Imperador Amarelo, venceu seus opositores
Derrotando três exércitos, prendendo seus seguidores
Mostrando que sua tática é coisa de vencedores
Escolher terreno alto em lugar ensolarado
Mantém a tropa saudável e o moral elevado
Quem se abriga nas sombras, fatalmente é derrotado
Deixe colinas e diques protegendo a retaguarda
Fique com o lado do sol, esteja à sua vanguarda
Ordene sua defesa, com arco, com espada e com vara
Cuidado com os sinais que veem da natureza
Se choveu muito pra cima, enchente vem com certeza
É melhor acampar longe, fugindo da correnteza
As regiões perigosas devem ser evitadas
Para fugir das surpresas e escapar de emboscadas
A astúcia do inimigo não deve ser desprezada
Desfiladeiro no rio não deve ser encarado
É melhor sair dali guarnecendo o seu lado
Procurando outro caminho que não seja arriscado
Um lugar de mata alta, um terreno pantanoso
Barranca com precipício, um terreno pedregoso
Devem ser contornados, todo ele é perigoso
Se o inimigo está pertinho, mas permanece escondido
É porque não tem vantagem, haja logo e decidido
Se atacar bem seguro ele pode ser vencido
Se a tropa está longe e procura provocar
Isso é muito perigoso, ele quer te engambelar
Não entre nessa roubada, nada pode te ajudar
Se houver mato, observe o balanço da folhagem
O voo dos passarinhos, tudo isso é mensagem
Prepare suas defesas para ficar em vantagem
Até os bichos do mato podem te dar um recado
Quando passam correndo o golpe está preparado
Leve tudo isso em conta para não ser esmagado
Veja as nuvens de poeira, pois elas podem indicar
A chegada do inimigo, vindo de qualquer lugar
Se a poeira for baixinha, infante vai atacar
Se chegar um mensageiro com palavra educada
Mas a tropa não desmonta e fica imobilizada
Pode até jurar na cruz, vai haver uma ...... ??????
Mas quando chegar gritando, contando muita bravata
Pode ficar com certeza que é conversa barata
Os soldados estão fugindo, já não tem com quem combata
Cuidado com as carruagens, se ficarem pelos lados
Precisa estar atento, batalhões organizados
Vão tentar ataque forte, mas pode ser rechaçado
Se os generais se agitam e não param de falar
Dando ordem para os soldados, você não pode esperar
Que de lá vem chumbo grosso, precisa se preparar
Se os soldados se apoiam com todo o peso na lança
Leve tudo isso em conta, está com fome, não avança
Tem sede e muito cansaço, não vai aguentar a dança
Enquanto eles se ajuntam para conversar apartados
Se os oficiais se irritam, esses estão rebelados
Não obedecem ao comando de generais derrotados
Para ganhar uma guerra precisa muita ciência
Generais de bom comando, tropas com obediência
Ouvindo muito Sun Tzu em aulas de competência.

Se você quiser ver o vídeo, basta clicar aqui.

Em tempo 1: embora o título seja por minha própria conta e risco, o autor parece ser José Alberto da Costa. Zé, se é você que está lendo este texto, por favor indique os erros para que eu possa corrigir. Se mais alguém acha que é o autor, por favor, me informe.

Em tempo 2: pesquisando imagens para ilustrar este texto, me deparei com o site Bacia das Almas (muito bonito), de Paulo Brabo, de onde tomei emprestada a ilustração, e com o blog de Silas Silva, poeta paraibano do cordel e da xilogravura, que editou um cordel sobre a Muralha da China e outro sobre ninguém menos que Bruce Lee.