Páginas

Mostrando postagens com marcador manipular o inimigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador manipular o inimigo. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de abril de 2012

Do Cheio e do Vazio (I) -- Capítulo VI do livro A Arte da Guerra

A grande sabedoria é obter do adversário tudo o que desejas, fazendo com que seus atos redundem em benefícios para ti.

Você conseguiria tratar assim seu inimigo? Sun Tzu diz que deveria. -- via Cia dos Ventos

Não se deixe confundir pelo título. Apesar de parecer tanto quanto metafísico, Do Cheio e do Vazio, o sexto capítulo do livro discorre mesmo, principalmente, sobre o comportamento do general perante o inimigo -- e, por tabela, sobre como infernizar a vida dele.

Ocupe o terreno, controle os movimentos do inimigo, imponha a ele o combate, faça-o ir aonde for melhor para você, atrapalhe sua vida, vigie-o atentamente, utilize-se do elemento surpresa, cuidado com os inimigos nas trincheiras e por aí vai. Não é de se admirar que, mais uma vez, Sun Tzu nos lembre da importância da dissimulação. Muitos destes comandos aí em cima dependem de saber fazer com que o inimigo veja o que não é e pense estar fazendo a coisa certa, quando, na verdade, está a caminho da derrocada.

Este também é um capítulo de conselhos práticos, em contraste franco com a também incensada obra de Miyamoto Musashi, O Livro dos Cinco Anéis, sobre a qual já comentei neste mesmo blog. De maneira geral, o espírito pode ser resumido nesta frase do terceiro parágrafo:

Um grande general não é arrastado ao combate; ao contrário, sabe impô-lo ao inimigo.

Para tanto, deve:

  1. escolher criteriosamente o terreno do campo de batalha, não permitindo que o inimigo tome a dianteira
  2. ter a habilidade necessária para controlar os movimentos do inimigo (e escolher bem o terreno já seria um bom início de conversa)
  3. fazer com que ele, o inimigo, vá exatamente aonde se quer, utilizando-se de subterfúgios como facilitar ou dificultar seus movimentos (torne fácil para ele ir aonde você quer, e torne difícil seu caminho em direção a lugares que não seria bom para você que ele ocupasse) 
  4. deixar que o inimigo se movimente primeiro, mas sempre tomando atitudes que o deixem alarmado, de modo a induzi-lo a cometer imprudências que poderão ser proveitosas

Note bem a importância que ele dá ao controle que se deve ter não apenas das próprias ações, mas também de todo e qualquer passo do inimigo. E não apenas no sentido de saber o que os caras estão fazendo, mas de induzi-los a fazer o que queremos que eles façam, inclusive e talvez principalmente, ao erro.

No fim das contas, o título parece adequado (apesar de meio metafísico), já que, de certa forma, o capítulo é sobre o preenchimento dos espaços -- tanto físicos, no terreno, quanto psicológicos, na mente das próprias tropas e, especialmente, das hostes do inimigo.

Em resumo, uma parte significativa deste capítulo é dedicada a transformar o leitor em um mestre titeriteiro. E o fantoche não poderia ser outro: o inimigo. Mas tem mais. No entanto, vamos deixar para o próximo post, que este já está meio grandinho.

Nos vemos no futuro.



Texto anterior
 - Do Confronto Direto e Indireto -- Capítulo V do livro A Arte da Guerra

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Do Confronto Direto e Indireto -- Capítulo V do livro A Arte da Guerra

Pela palavra "força" não se deve entender "dominação", mas sim a faculdade que permite que se transforme em ato tudo aquilo que se propõe.
Nosso herói estria mais para Darth Vader ou Luke Skywalker! - via A Mosca Branca

Pessoas, pessoas, pessoas! O fato de eu estar demorando para atualizar o blog não significa que o projeto do livro está parado. Tenho estado a pesquisar e ler material histórico no qual tenho encontrado muitas coisas interessantíssimas sobre a China (que ainda não era China) de Sun Tzu. Aliás, estas pesquisas me fortaleceram a impressão de que, desde sempre, a cultura chinesa é de uma riqueza impressionante -- muito além dos velhos e surrados clichês que vemos por aí.

Em breve devo relatar algo destas pesquisas. Enquanto isso, e já entrando no assunto deste post, devo dizer que de certa forma este capítulo é uma continuação, ou um complemento, do capítulo anterior, Da Arte de Manobrar as Tropas.  Entende-se isso tanto ao analisar a parte inicial -- quando o assunto é comando das tropas --, quanto ao continuar a leitura -- quando Sun Tzu fala, efetivamente, a respeito do confronto direto e indireto.

Quanto ao comando das tropas, ele basicamente ressalta a necessidade de organização, ignorando o tamanho das tropas. Pra ele, tanto faz comandar muitos ou poucos, seria tudo a mesma coisa, desde que se tenha organização. Aliás, já vi esse conceito n'O Livro dos Cinco Anéis, de Musashi.

Ainda sobre comandar as tropas, há um conselho que deixaria Dale Carnegie e todos os gurus pós-modernos da administração e do networking orgulhosos: lembrar o nome de todos os oficiais e subalternos. Claro que não era só por ser "bonzinho" e fazer amigos e influenciar pessoas. A ideia é não apenas lembrar os nomes, mas saber sore suas habilidades e capacidades, de modo a melhor aproveitar o potencial de cada um quando for necessário.

A roda em movimento
Já quando ele está a falar de confronto direto e indireto, na verdade quer também explicitar a existência de forças complementares que, quando combinadas, constituem a certeza de sustentar o ataques inimigos sem sofrer derrotas. Diz ele, ainda pegando uma rebarba do assunto inicial:
Ataca a descoberto, mas vence em sigilo. Eis, em poucas palavras, em que consiste a habilidade e a perfeição do comando das tropas.
Luz e trevas, aparente e secreto, céu e terra, sol e lua, Batman e Robin. Sun Tzu utiliza essas metáforas (exceto a última) para enfatizar a necessidade não apenas de lutar abertamente contra qualquer inimigo (atacar a descoberto), pois isso apenas não garantiria a vitória. Seria necessário também utilizar-se de ações fugidias, como a espionagem, a dissimulação e a sabotagem, para, junto com os ataques diretos, obter a almejada vitória (vence em sigilo).

Embora destaque somente essas duas espécies de forças (escolha a dupla que melhor lhe convém, ou invente uma -- a ideia é a complementaridade), o chinês afirma que sua combinação é ilimitada e que, na prática, assemelham-se a uma cadeia de operações interligadas. Partindo para um exemplo menos misterioso, ele ensina que, na arte militar,
cada operação particular tem partes que exigem a luz do dia e outras que pedem as trevas do segredo. Não posso determiná-las de antemão. Só as circunstâncias podem ditá-las.
E mais uma vez (não pela última) nos deparamos com o cara falando das tais circunstâncias. Mais adiante, inclusive, neste mesmo capítulo V, ele traz o assunto à baila novamente, afirmando que um hábil comandante busca a vitória com base nas circunstâncias.

Da arte de comandar e de manipular o inimigo
Além deste assunto central, o capítulo ainda fala de outros dois pontos que aparentemente não tem muito a ver com o tema. Mas, creio, só aparentemente. O primeiro é mais uma lista, desta vez sobre os que "possuem verdadeiramente a arte de comandar". De acordo com o texto são os que:

  • souberam e sabem potencializar sua força
  • adquiriram uma autoridade ilimitada
  • não se deixam abater por nenhum acontecimento
  • nunca agem com precipitação
  • se conduzem com sangue frio
  • e agem sempre com a rapidez fruto de habilidade + experiência

O segundo ponto é algo tão trivial quanto pode ser "a arte de manipular os deslocamentos do inimigo". E aqui, mais uma vez, vale reproduzir o trecho, ipsis literis:
Aqueles que dominam essa arte admirável dispõem de ascendência sobre o próprio exército, de tal forma que manipulam o inimigo sempre que julgarem apropriado (...) dão e o inimigo recebe; abandonam e o inimigo recolhe. Estão prestes a tudo. Aproveitam-se de todas as circunstâncias.
Talvez, juntando tudo isso, a gente consiga entender porque os Jedis viviam dizendo aquilo que eles viviam dizendo. E que a força esteja com você!


Texto anterior
 - Século XXI, mundos altamente conectados e a arte do (des)encontro