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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Do Comando da Guerra -- Capítulo II do livro A Arte da Guerra


A vitória é o principal objetivo da guerra.

Che e Fidel: será que os rapazes conheciam os princípios do mestre Sun? -- via Tochadas Mias
Antes de mais nada, cabe informar que estou publicando os textos a respeito de cada capítulo do livro com base na tradução do francês para o português feita por Sueli Barros Cassal (edição da L&PM Pocket). Digo isso porque, apesar de ter percebido que as ideias centrais do texto original -- pelo menos na essência -- permanecem em cada tradução, pode haver diferenças significativas no texto em si.

Exemplo é o título do capítulo II, que na tradução de Cassal é "Do Comando da Guerra". Na versão de Lionel Giles, em inglês, é "Waging War", que poderia ser traduzido como "Empreendendo (ou fazendo) a Guerra". No blog do sinólogo André da Silva Bueno está "Sobre o Princípio das Ações". E por aí vai.

A seiva da guerra
Isto posto, sigamos ao que realmente interessa. Sun Tzu inicia o capítulo dando a entender que, se você está organizado e preparado, nada precisa aguardar para atacar o inimigo, a vitória é certa. Aliás, ele destaca não apenas aqui, mas também em outras passagens, a necessidade de agir com a máxima prontidão, de evitar atrasos e demoras, que não são úteis nem ao general e seus comandados, nem ao governante e, tampouco, ao Estado e ao povo.

Permanecer muito tempo em campanha seria, pois, fonte de inúmeros problemas:

Os cofres do príncipe que serves se esvaziarão, tuas armas -- embotadas pela ferrugem -- não poderão mais servir, o entusiasmo de teus soldados arrefecerá, sua coragem e força esmorecerão, as provisões se esgotarão e, talvez, tu mesmo fiques reduzido a uma situação desesperadora.

Mais adiante continua:

Não poderás manter as tropas em campanha por muito tempo sem acarretar grande prejuízo ao Estado e sem dar um golpe mortal em tua própria reputação.

Tendo isso em vista, aconselha ao general que não apenas esteja mais bem preparado e aparelhado que o inimigo, mas também que se abasteça às suas expensas, minando suas forças. Essa ideia tem, em si, duas vertentes. A primeira é material, pura e simplesmente. Retire do inimigo provisões, víveres, munições e até mesmo seus homens e você se fortalecerá, pois estará acrescendo todas estas coisas ao seu próprio cabedal.

A segunda decorre da primeira. Sem força material o inimigo perde também força moral e assim fica mais propenso à derrota. Nos tempos modernos, Che Guevara e Fidel Castro aplicaram este, e outros princípios do general chinês, com maestria para obter sucesso em sua guerrilha. Se eles conheciam ou não a obra de Sun Tzu A Arte da Guerra é discutível, mas que daria para incluir sua campanha no documentário de que já falei, ah! isso daria.

Prisioneiros de guerra
Um detalhe curioso, e que também se repete em outras passagens, é a noção de tratar bem os prisioneiros:

Faz com que se sintam melhor sob tua égide do que em seu próprio campo, ou mesmo em sua pátria. (...) conduz-te em relação a eles como se fosse tropas que se tivessem engajado livremente sob teu estandarte. Eis o que chamo ganhar uma batalha e tornar-se mais forte.

É certamente um conceito que vai de encontro a qualquer noção de barbarismo que se possa ter e também surpreende, em se tratando do período em questão, século VI AEC. Provável influência taoísta e confucionista, mas isso é assunto para outro texto.

Que a força esteja com você!


Texto anterior - Da arte de fazer alianças II - Game of Thrones e Catelyn Stark

domingo, 16 de outubro de 2011

Da Avaliação -- Capítulo I do livro A Arte da Guerra

A guerra tem importância crucial para o Estado.
Assim começa o primeiro capítulo do livro de Sun Tzu, "Da Avaliação". E continua discorrendo sobre fatores que merecem atenção do general para bem conduzir uma guerra, planejamento e conselhos genéricos (principalmente sobre os fatores citados). Também introduz temas que serão mais detalhados em capítulos posteriores, como a dissimulação -- "toda campanha militar repousa na dissimulação" (só militar?).

Tropas francesas abandonando Moscou -- Napoleons retreat from Moscow, de Adolf Northern (1828-1876)

Os 5 Fatores
Os fatores que Tzu considera essenciais para que "a glória e o sucesso acompanhem nossas armas", são:
  • a doutrina -- que "engendra a unidade de pensamento". Me parece ter muito a ver com a conquista dos "corações e mentes" do povo comandado (ou liderado);
  • o tempo -- aqui ele fala, um tanto quanto misteriosamente, em yin e yang, mas a ideia mesmo é levar em consideração os fatores climáticos (lembra da famigerada campanha de Napoleão na Rússia?);
  • o espaço -- a ideia, semelhante à do tempo, é levar em consideração o terreno, a geografia, para termos a noção "do que permanece e do que não cessa de fluir";
  • o comando -- aqui, ele se refere a "virtudes necessárias que devemos adquirir a qualquer preço": equidade, amor pelos subordinados e pela humanidade em geral, conhecimento de todos os recursos, coragem, determinação e rigor;
  • a disciplina -- neste quesito, além de destacar a disciplina militar propriamente dita, Tzu também dá muita ênfase a se conhecer, exata e detalhadamente, todos os fatores que podem intervir.
Além disso, o capítulo nos oferece verdadeiras pérolas que demonstram porque este livro não apenas sobreviveu até os dias atuais, mas continua influenciando os pensamentos militar, político e até corporativo.

Dissimulação
A parte dedicada a dissimulação não apenas parece descrever as danças político-partidárias de qualquer país do mundo atualmente, mas também poderiam muito bem ter influenciado (por que não?) o pensamento do próprio Maquiavel -- exageros a parte:

Haverá ocasiões em que te rebaixarás, e outras em que simularás medo. Finge ser fraco, a fim de que teus inimigos, abrindo a porta para a presunção e para o orgulho, venham atacar-te em hora errada, ou sejam surpreendidos e derrotados vergonhosamente.

Jamais deixes de oferecer um engodo ao inimigo, para ludibriá-lo.

Em tempo: muito lentamente estou avançando na leitura de A Arte da Guerra. Neste momento estou no capítulo VI, "Do Cheio e Do Vazio". Espero ter terminado ainda no início de novembro. Mas antes disso voltarei com minhas observações, pelo menos, sobre o capítulo II, "Do Comando da Guerra". Apenas a título informativo, a tradução que estou lendo e que está servindo de base para estes comentários é da Sueli Barros Cassal, feita a partir do original francês do Padre Amiot, 1772.

Veja também:

Texto anterior - Sun Tzu e as mulheres do rei de Wu