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sábado, 8 de junho de 2013

Sobre a Movimentação -- Capítulo IX do livro A Arte da Guerra

Um exército deve escolher lugares altos, evitar os baixos, valorizar a luz e fugir da sombra.
Yang Tze, ou Chang Jiang, um dos maiores rios da China e cenário de batalhas épicas na aniguidade
Ah, também é bom saber atravessar rios, viu? -- via Olhar das Montanhas
Confesso que às vezes tem que se esforçar um pouco mais para entender o Sun Tzu. O cara vem e escreve um capítulo com o nome "Manobras" e, dois capítulos depois, me aparece com um chamado "Sobre a movimentação"! Por que não faz um só, se as duas coisas são quase a mesma coisa?

Obviamente que pra bem responder a esta pergunta é necessário conhecer a fundo dois temas: 1) a arte da guerra propriamente dita; e 2) o id, o ego e o superego de um chinês de 2500 anos atrás. Nenhum do dois temas me é estranho, mas estou longe (muito longe mesmo) de ser uma sumidade em qualquer um deles.

No entanto, fica-me a impressão de que as "manobras" enfatizam mais a organização do exército (mesmo no campo de batalha) e de que as "movimentações" dizem mais respeito ao posicionamento do exército frente ao inimigo e à topografia. Se eu estiver errado, por favor, deixe-me saber. Não sem antes terminar de ler este post e o que trata de manobras, claro.

As condições básicas
Pois bem, Sun Tzu começa o capítulo destacando 4 condições básicas que é necessário conhecer para se dar bem na peleja. Todas tem a ver com o que escrevi ali em cima (posicionamento do exército em relação à topografia e ao inimigo) e, segundo o filósofo, o mítico Imperador Amarelo não apenas as conhecia, mas também as empregou para vencer os Quatro Soberanos dos Tempos Antigos. São elas:
  1. Quando nas montanhas, ficar no alto, a favor da luz-- afastar-se de vales, precipícios, becos e desfiladeiros e usá-los contra os inimigos, forçando-os a ficarem de costas para o perigo
  2. Quando na água, não combater ali perto, permanecer em lugar elevado e a favor da luz -- também não atravessar se houver torrentes e correntezas fortes ou redemoinhos ("poços celestes")
  3. Quando no pântano, atravessá-lo o quanto antes e, caso atacado, ficar junto à vegetação rasteira, de costas para as árvores -- terrenos pantanosos são propícios para emboscadas e espionagem
  4. Quando em um terreno plano, buscar espaço para manobrar e, para proteger a vanguarda,  manter lugares altos atrás e à direita
Após destrinchar esses conceitos, Sun Tzu passa a discorrer sobre o significado de determinados comportamento do ambiente e dos inimigos. Do ambiente, é dito:
Quando as árvores se mexem, é porque o inimigo está marchando. Muitas marcas na vegetação rala podem ser uma armadilha ou pista falsa.
Pássaros voando significam emboscada; animais amedrontados, que uma tropa aguarda na tocaia; poeira densa no ar, carros que se aproximam; poeira baixa, soldados marchando; fumaça indica fogueiras e acampamentos; nuvens de pó suave significam o mesmo.
Conhece o inimigo e a ti mesmo
Sobre o inimigo, inúmeros comportamentos são avaliados, com seus respectivos significados. Se ele
  • está perto, mas calmo -- está forte e preparado
  • chama para a luta de longe -- está em posição favorável
  • envia emissários: com palavras doces e humildes -- vai atacar; ríspidos e agressivos -- vai fugir; com justificativas razoáveis -- quer negociar
  • pede paz sem proposta ou acerto -- é traição
  • posiciona carros ligeiros nos flancos -- formam a frente de batalha
  • dispõe os carros em filas de combate -- espera reforços
  • tem metade das forças andando de um lado para o outro, avançando e recuando -- atrai para uma armadilha
Note que os comportamentos acima, aos quais chamarei "ativos", são intencionais e buscam provocar uma ação que resultará em vantagem ao inimigo. Há também uma série de comportamentos que podemos chamar de "passivos" e que, se bem lidos, resultam em desvantagem para eles.

Ao ler tais comportamentos, é possível saber se eles (os inimigos) estão famintos ou sedentos, extenuados ou amedrontados, cansados, desorganizados, desesperados, no limite das forças, indisciplinados, se abandonaram o acampamento ou se o general não mais possui autoridade ou a lealdade dos soldados.

Seguindo a velha e boa máxima do conheça o inimigo e a si mesmo, Sun Tzu finaliza o capítulo apresentando algumas atitudes que devem ser ponderadas no que diz respeito ao relacionamento do general com as tropas. Elas tem a ver com castigo e lealdade; obediência e (in)submissão; cortesia e "ardor marcial". Tudo isso ligado, direta ou indiretamente, à clareza, sentido, confiabilidade e justiça das ordens, como podemos verificar no parágrafo derradeiro:
Quando as ordens são confiáveis e justas, elas serão cumpridas, estando o líder e a tropa em comum acordo.
Como sempre, a ideia de que a inteligência (ou estratégia) deve prevalecer sobre a força bruta (ou pelo menos sustentá-la) perpassa todo o texto. Pense nisso e comente. Hasta!


Texto anterior - As Nove Mudanças -- Capítulo VIII do livro A Arte da Guerra

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Frases de Sun Tzu e da Arte da Guerra (I)

Uma coisa interessante a respeito das grandes personalidades é que elas, em sua maioria, tem enorme capacidade de criar frases que impactam as pessoas, geram reflexão e acabam por adquirir vida própria, apartadas da obra original.

"Be quick or be dead!" -- teriam o pessoal do Iron Maiden e esse tal Vettel (foto) lido Sun Tzu?
Foto via Dezinteressante (sem indicação do autor)

Ora, com Sun Tzu não foi diferente e há zilhões de frases por aí, ou atribuídas a ele, ou de fato presentes em sua obra. A partir de agora teremos uma série de posts com frases extraídas diretamente do livro a Arte da Guerra -- traduzidas livremente da versão de Lionel Giles.

1. A arte da guerra é de importância vital para o Estado.
Esta é a frase que abre o livro e também dá uma boa ideia de porque o rapaz resolveu escrevê-lo.

2. Toda guerra é baseada na dissimulação.
Ainda do primeiro capítulo, é a primeira referência a um conceito caro a Sun Tzu.

3. Ataque-o onde ele está despreparado, apareça onde você não é esperado.
Ele, no caso, é o inimigo. Outro conceito caro a Sun Tzu, que tem muito a ver com a dissimulação, é a surpresa.

4. O general que vence a batalha faz muitos cálculos em seu templo antes de lutar.
Esta reflete a essência do primeiro capítulo, que diz respeito exatamente a planejar. Também sintetiza outra ideia recorrente na obra, a de vencer antes (ou a despeito) mesmo de lutar.

5. Não existe exemplo de país que tenha se beneficiado de uma guerra prolongada.
Já no segundo capítulo, que trata basicamente de organização, aparece mais um tema caro a Sun Tzu: evitar guerras e batalhas prolongadas, agir rapidamente.

6. Na guerra, então, o grande objetivo deve ser a vitória, não campanhas prolongadas.
Mais um exemplo do tema abordado na frase anterior: rapidez, velocidade.

7. Na arte da guerra, a melhor coisa é tomar o país inimigo inteiro e intacto.
Essa ideia pode parecer surpreendente, em se tratando de um texto sobre guerra (e destruição e todas as suas consequências), mas também é recorrente na obra de Sun Tzu -- com algumas variações.

8. A excelência suprema consiste em quebrar a resistência inimiga sem lutar.
Lembra do comentário sobre a frase 4 acima?

9. A maneira mais elevada de comandar é frustrar os planos inimigos.
Ainda uma ideia que tem a ver com a "arte de lutar sem desembainhar a espada".

10. A pior política é sitiar cidades bem protegidas.
A partir da frase 9, Sun Tzu cita ainda mais 2 maneiras de "se dar bem" na guerra, por ordem de importância. Depois, destila a frase 10 -- algo como "Quer se dar mal? Faça isso!"

Parafraseando outra grande personalidade, "por enquanto, é só pessoal"! Mas guenta firme aí que em breve publicarei mais frases do china -- entre outras coisas muito interessantes que tenho descoberto em minhas pesquisas para escrever o livro.



Texto anterior - A Arte da Guerra na literatura de cordel