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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Evolução dos fatos I -- os bons companheiros

Quer ser meu melhor amigo? -- via Lengua y Literatura
No post anterior, apresentei uma cronologia básica dos principais fatos que marcaram a época de Sun Tzu. Neste e nos próximos, vamos detalhar um pouco estes fatos, muitos dos quais ou farão parte da trama principal do livro ou terão uma função importante de contextualização da história.

Antes de irmos ao que interessa, gostaria de chamar a atenção para o termo wang, que utilizaremos doravante. Trata-se de um título de nobreza assemelhado a rei, que será usado neste blog para fazer referência aos chefes das províncias mais poderosas. Em tese, apenas o regente dos Chou (a dinastia que, também em tese, detinha a máxima autoridade) merecia e herdara título de tamanha envergadura, embora também recebesse o título de imperador.

Quero dizer ainda que a trama principal se passará no tempo que eu chamo de presente (da história, claro) e os relatos referentes a ela serão detalhados nos últimos desta série de posts. Estes que ora apresento são do passado médio. E ainda haverá os do passado próximo e longínquo, mas não se apoquente, cada coisa a seu tempo.

Isso posto, agora sim, vamos ao que interessa: a história gira em torno, principalmente, de dois reinos (ou principados, ou feudos, ou estados, ou províncias, ou outra coisa, ainda estou avaliando): Wu, onde Sun Tzu teria atuado como general, e Ch'u, um dos fodões da época.

Ao longo do século VII AEC, Ch'u incrementou seu poderio militar a ponto de subjugar muitas províncias menores, como Ts'ai, Shen e Cheng. Ao final do século, o total de pequenas províncias anexadas a seus domínios ou simplesmente destruídos alcançou a marca de 40, incluindo muitos que afirmavam ter ancestrais na linhagem imperial dos Chou -- a dinastia que detinha o poder (ainda que pratica e tão somente nominal) de Tudo Sob o Céu.

Desde que os Chou tiveram que mudar sua capital para o leste, dando início ao período da história chinesa conhecido exatamente como Chou do Leste (ou Oriental), a figura do imperador tornou-se cada vez mais enfraquecida, a ponto de, em determinado momento, o poder de fato ser exercido pelos vassalos, sob a liderança de um deles, conhecido como hegemônico. O primeiro vassalo a assumir este papel de liderança (em nome da dinastia, claro) foi o kung Huan, de Ch'i, cujo governo à frente do principado foi de 685 AEC até 634 AEC (kung, para todos os efeitos, é algo assemelhado a duque).

Ch'u continuava a alimentar suas ambições, o que não impediu sua derrota para os principados aliados Sung, Chin, Ch'i e Ch'in na famosa batalha de Ch'eng-P'u, em 632 AEC, ano em que seu território total já cobria mil li. A derrota fez com que Ch'u, pelo menos temporariamente, redirecionasse sua campanha expansionista para o sul e o sudeste, passando a dominar muitas províncias menores ao longo do rio Han. Esta mudança de rumos inevitavelmente fez com que Ch'u e Wu entrassem em rota de conflito.

No início do século seguinte, VI AEC, o principado de Chin (que era outro dos fodões da época, ao lado de Ch'u) teve a audácia de formar "seis exércitos", usurpando uma prerrogativa imperial dos Chou. Tornou-se também mais uma província cujo wang aclamava-se hegemônico.

Não muito tempo depois, em 585 AEC, Shou-meng torna-se o primeiro governante de Wu a assumir o título de wang. Isso é outro passo desta província em direção ao estilo administrativo mais formal empregado no norte. Também representa um claro esforço no sentido de aumentar seu prestígio e acaba por colocar mais uma pedra no sapato de Ch'u.

As províncias do norte também testemunharam o nascimento de outros wang, embora muitas ainda fossem governadas apenas por kung ou nobres menores.

Diplomacia em tempos de guerra
Também em 585 AEC, Wu monta uma campanha que atravessa mil li para atacar e derrotar o pequeno principado de T'an, demonstrando seu crescente poder. Isto chama a atenção de Chin, que lhes propõe uma aliança, já em 584 AEC, por meio do envio de uma comitiva com 9 carruagens e 125 guerreiros e oficiais, liderada por Wu-ch'en, o kung de Shen.

O fato é que Chin obtivera um razoável sucesso em seus esforços para conter Ch'u. No entanto, ao se deparar

  • com a ameaça advinda do poder crescente de Ch'in, a oeste, 
  • com suas próprias disputas internas e 
  • com o rápido declínio de seu prestígio, 

resolveu desenvolver uma alternativa externa ao poder de Ch'u. Por isso, o envio da comitiva a Wu, já que sua força cada vez maior sugeria a possibilidade de uma parceria construtiva entre ambos.

Além da concretização da aliança, a visita tinha o objetivo explícito de apresentar a Wu a carruagem e as técnicas de combate em solo das províncias do norte. No entanto, o verdadeiro impacto e a efetividade das instruções de Wu-ch'en são discutíveis, já que forças navais e de infantaria continuaram a predominar em Wu, com as carruagens sendo mencionadas apenas esporadicamente nos textos históricos que dão conta de suas diversas batalhas.

Ataques importantes de Wu contra Ch'u foram lançados a partir de rotas aquáticas, ou pelo menos cruzando grandes rios, de modo que barcos para transporte eram inevitavelmente necessários. Isto era um limitador para o número de carruagens empregadas, já que elas eram difíceis de ser carregadas. Assim, as unidades de infantaria invariavelmente desempenhavam o papel central.

Esta visita marca, ainda, um ponto de virada no que diz respeito à correlação das forças militares e, pelo menos de forma simbólica, insere Wu culturalmente na esfera das províncias civilizadas. Além disso, Wu-Ch'en torna-se o primeiro "conselheiro convidado" a ser recebido em Wu, iniciando ali uma tradição que posteriormente resultaria na "contratação" de Wu Tzu-hsü e Sun Tzu.

And that's all, folks! No próximo texto vamos continuar desenvolvendo essa história até a famosa batalha de Chi-fu (não confundir como mestre de Po, em Kung Fu Panda), ou um pouco antes disso.

Hasta!



Próximo texto - A caminho

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Da arte de fazer alianças II - Game of Thrones e Catelyn Stark

Logo após terminar de reler A Arte da Guerra, discorri por aqui sobre o quanto Sun Tzu dá importância às alianças em sua obra. Citei como exemplo passagens da série Game of Thrones envolvendo o personagem Tyrion Lannister, interpretado por Peter Dinklage.

Lady Stark negocia com o jeitoso Lorde Frey - via Game of Thrones Portugal

Hoje vou dar continuidade ao assunto alianças, mais uma vez com base em Game of Thrones. Agora, no entanto, a personagem será Catelyn Tully Stark, esposa de Eddard (Ned) Stark (Sean Bean, o Boromir de O Senhor dos Anéis) e Lady de Winterfel (interpretada pela atriz Michelle Fairley). No episódio 9, denominado Baelor, os homens comandados por seu filho Robb (Richard Madden) precisam atravessar uma ponte fortificada controlada por um Lorde rabugento, de nome Walder Frey (David Bradley, o Argus Filch de Harry Potter).

Loucura, loucura, loucura!
Tentar atravessar à força seria um ato de insanidade, o que deixava como única alternativa bater um papo com o Lorde Frey e pedir encarecidamente que ele abrisse passagem. Após um breve bate-boca interno, decide-se que a pessoa certa para ter com o tinhoso controlador da passagem é a não-sem-importância-na-trama Lady Stark. Ela vai, a série não nos mostra toda a conversa entre ambos, ela volta. Boa notícia, o cara vai deixar passar e ainda vai ajudar com homens, mas...

Aqui entra a questão de se fazer alianças a qualquer custo. Robb pergunta sobre o preço a ser pago. Ninharia:  entre outras "cositas", a irmã mais nova de Robb, Arya Stark (Maisie Williams), deverá se casar com um dos filhos do Lorde sem-noção e... o próprio Robb deverá desposar uma das filhas do homem carrancudo. Quem acompanhou a série, e teve a não-exatamente-grata-satisfação de ver como funcionam as coisas na casa do Lorde Frey, sabe o quanto será penoso para Robb cumprir o trato. Mais, sabe também que Arya jamais casar-se-á com qualquer pessoa que não seja de seu interesse -- se é que algum dia ela vai casar-se com alguém.

Mas isso já é assunto para o futuro de Winterfel. O importante é que eles conseguiram o que precisavam e, mais do que nunca, the winter is coming, o inverno está chegando!

A propósito, nos próximos textos devo voltar a falar sobre os capítulos d'A Arte da Guerra, assim como fiz neste texto, bem como sobre os avanços nas pesquisas, que tem envolvido Tao Te Ching e Mitologia Chinesa, entre outras coisas.


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Da arte de fazer alianças I - Game of Thrones e Tyrion Lannister

Finalmente ontem (03/11) terminei de reler A Arte da Guerra. Certamente, até por conta deste meu projeto, observei nuances e obviedades que eu não tinha observado em minha leitura anterior. Provavelmente ainda vou reler outra(s?) vez(es?), mas já consegui diversos insights para o livro, sobre os quais conversaremos em breve -- inclusive um provável título.


Por enquanto quero falar a respeito de como, nos filmes e séries que tenho assistido, passei a enxergar os preceitos de Sun Tzu. Mais especificamente na série Game of Thrones -- que vem a ser uma das boas coisas produzidas pela TV nos últimos anos. Adaptada de uma série de livros de George R. R. Martin intitulada As Crônicas de Gelo e Fogo, a história se passa num mundo fictício, com jeito de Idade Média, em que diversos reinos disputam a hegemonia. Traições, confabulações, guerras, sexo e sangue são alguns dos ingredientes básicos da trama -- muito bem contada e produzida.

Como você gostaria de morrer?
Alianças são feitas, desfeitas e refeitas a todo momento e esse é um dos pontos que me chamam a atenção no que diz respeito ao livro de Sun Tzu. Entre os temas que se destacam na obra chinesa, a necessidade de estabelecer alianças é constantemente realçada. E há um personagem na série da TV -- um dos melhores na primeira temporada -- que é mestre na arte de estabelecer alianças bem ao estilo de Sun Tzu: a qualquer preço.

Falo de Tyrion Lannister, personagem interpretado pelo ator Peter Dinklage, cuja característica física mais marcante é ser anão. Já quanto à personalidade, é de uma perspicácia ímpar, e até o final da primeira temporada da série conseguiu sair-se das situações mais difíceis utilizando-se de sua arma mais poderosa: a lábia -- seja pela via do convencimento puro e simples, seja por estar sempre disposto a oferecer as mais polpudas recompensas.

Uma passagem emblemática desta característica é o momento em que ele é cercado por bárbaros em uma floresta e, indagado sobre como deseja morrer, responde:

Aos 80 anos, em minha cama, com a barriga cheia de vinho e o p... na boca de uma mulher.

Parafraseei um pouco, mas o fato é que tal resposta não apenas desarmou os espíritos dos bárbaros, mas abriu caminho para que ele propusesse uma aliança envolvendo ouro, terras e glória. Não deu outra. Acabou se tornando o líder dos bárbaros na batalha que sucedeu-se pouco depois (embora não tenha lutado) e continuou vivo e mordaz.

Há ainda diversos outros exemplos de quão predisposto a alianças é o personagem (e do quanto ele as considera importantes, como o do vídeo acima), mas acho que este episódio dos bárbaros resume tudo. Também demonstra que Sun Tzu sabia do que estava falando quando escreveu A Arte da Guerra. -- e não é apenas a ficção que prova isso.

Texto anteriorSun Tzu, Segunda Guerra, Vietnã e Guerra Civil dos EUA