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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Da arte de criar as próprias circunstâncias

Dani Targaryen e um de seus pets -- arte de Daniel Moreira via Daniel Artwork

Você que acompanha o blog desde o início deve ter percebido que eu faço muitas associações entre o que diz Sun Tzu e o que vejo por aí (principalmente) em livros, filmes e séries de TV. Exemplos disso podem ser vistos aqui e aqui.

É provável também que tenha percebido uma "quase" obsessão com a saga das Crônicas de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire), mais conhecida no Brasil pelo nome que recebeu a série de TV: Game of Thrones (Jogo dos Tronos). Obviamente que esta presença marcante não é mero acaso.

Os livros, muito bem escritos, contam uma história de poder ambientada num mundo fictício, com muitos elementos medievais e outros tantos que parecem saídos diretamente das páginas de As Mil e Uma Noites. As personagens são maravilhosamente bem construídas e a trama é de tirar o fôlego. Quando me perguntam como é essa história, costumo dizer sem floreios que se trata de O Senhor dos Anéis para gente grande.

A adaptação para a TV é muito bem produzida e possui um nível de fidelidade aos livros sem precedentes. Claro, adaptação é adaptação e há alguns ajustes em e relação aos livros, mas nada que deixe os fãs (muito) revoltados.

Mas o que explica mesmo as aparições frequentes da estória e personagens de George Martin no blog são as situações que, quando não se encaixam como uma luva nos preceitos d'A Arte da Guerra,  tem tudo a ver com o que dizia o não menos maquiavélico Nicolau. Ou, melhor ainda, com as ideias de ambos ao mesmo tempo, do italiano e do chinês. E é aqui que chegamos ao ponto central deste post, no caso, as já famosas circunstâncias.

Mongois, dragões e uma loira fogosa
Daennerys Targaryen é, até o momento, uma das principais personagens da estória e tem por meta, assim como outras personagens importantes, ascender ao trono de Westeros. Naturalmente, sua aspiração é mais do que legítima, já que estamos falando de ninguém menos que a filha do rei louco (e morto) de quem o trono fora usurpado; e já que também seu irmão mais velho, Viserys, fica um tanto quanto impossibilitado de exercer a prerrogativa que seria sua por direito.

Acontece que, até o presente momento, as circunstâncias não permitem que ela avance em direção ao que lhe pertence. Ora, para Sun Tzu, esse negócio de circunstâncias e uma moeda de duas faces são a mesma coisa. Digo, ao mesmo tempo em que é necessário estar preparado para se adequar às circunstâncias -- e isso Daennerys tem feito com bastante jogo de cintura -- também se deve buscar criar as circunstâncias de que se precisa para alcançar o objeto de desejo. E é disso que estamos falando neste exato momento.

No início da sua "carreira", a mocinha era um tanto quanto inocente, mas após ser vendida como noiva pelo próprio irmão ao chefe de um clã "mongol", de se ver obrigada a aprender como agradá-lo na cama, acompanhar sua queda e ver a própria gravidez ir para o escambau, além de outras intempéries, foi perdendo a inocência e ganhando o jogo de cintura a que me referi ali em cima. Não demorou muito e ela percebeu que deveria tomar as rédeas da própria vida, caso quisesse voltar a Westeros por cima da carne seca.

Com a ajuda de três animaizinhos de estimação, de um fiel cavaleiro e de meia dúzia de seguidores, avançou em seu plano pela via indireta (Sun Tzu também fala disso, mas fica para outro post, talvez). No lugar de retornar imediatamente para sua terra natal, aproveitou o limão que tinha e foi atrás de água suficiente para fazer uma puta limonada.

Aos poucos, fez novos aliados e inimigos, reafirmou velhas amizades, incorporou um exército altamente treinado à sua corte, pôs ao chão uma cidade-estado e libertou do jugo milhares de escravos. Tudo isso do outro lado do mundo, enquanto apareciam zilhões de oportunidades de retornar ao seu querido, mas nunca conhecido, lar.

Ao final da terceira temporada da série, a menina prodígio está a ponto de conquistar mais uma cidade, já deixou muito figurão no meio do caminho e começa a chamar a atenção dos demais postulantes ao trono. Coisas que, tivesse ela ignorado os ensinamentos da sabedoria militar chinesa, jamais teria alcançado, ficando longe, muito longe, da corrida maluca pelo comando supremo dos sete reinos.

Então #ficadica: adapte-se às circunstâncias, crie as suas próprias e não deixe de conferir As Crônicas de Gelo e Fogo (pra quem curte uma boa leitura) ou Game of Thrones (pra quem não desgruda da TV).

Dracarys!



Texto anterior - A China antes da China

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Do Confronto Direto e Indireto -- Capítulo V do livro A Arte da Guerra

Pela palavra "força" não se deve entender "dominação", mas sim a faculdade que permite que se transforme em ato tudo aquilo que se propõe.
Nosso herói estria mais para Darth Vader ou Luke Skywalker! - via A Mosca Branca

Pessoas, pessoas, pessoas! O fato de eu estar demorando para atualizar o blog não significa que o projeto do livro está parado. Tenho estado a pesquisar e ler material histórico no qual tenho encontrado muitas coisas interessantíssimas sobre a China (que ainda não era China) de Sun Tzu. Aliás, estas pesquisas me fortaleceram a impressão de que, desde sempre, a cultura chinesa é de uma riqueza impressionante -- muito além dos velhos e surrados clichês que vemos por aí.

Em breve devo relatar algo destas pesquisas. Enquanto isso, e já entrando no assunto deste post, devo dizer que de certa forma este capítulo é uma continuação, ou um complemento, do capítulo anterior, Da Arte de Manobrar as Tropas.  Entende-se isso tanto ao analisar a parte inicial -- quando o assunto é comando das tropas --, quanto ao continuar a leitura -- quando Sun Tzu fala, efetivamente, a respeito do confronto direto e indireto.

Quanto ao comando das tropas, ele basicamente ressalta a necessidade de organização, ignorando o tamanho das tropas. Pra ele, tanto faz comandar muitos ou poucos, seria tudo a mesma coisa, desde que se tenha organização. Aliás, já vi esse conceito n'O Livro dos Cinco Anéis, de Musashi.

Ainda sobre comandar as tropas, há um conselho que deixaria Dale Carnegie e todos os gurus pós-modernos da administração e do networking orgulhosos: lembrar o nome de todos os oficiais e subalternos. Claro que não era só por ser "bonzinho" e fazer amigos e influenciar pessoas. A ideia é não apenas lembrar os nomes, mas saber sore suas habilidades e capacidades, de modo a melhor aproveitar o potencial de cada um quando for necessário.

A roda em movimento
Já quando ele está a falar de confronto direto e indireto, na verdade quer também explicitar a existência de forças complementares que, quando combinadas, constituem a certeza de sustentar o ataques inimigos sem sofrer derrotas. Diz ele, ainda pegando uma rebarba do assunto inicial:
Ataca a descoberto, mas vence em sigilo. Eis, em poucas palavras, em que consiste a habilidade e a perfeição do comando das tropas.
Luz e trevas, aparente e secreto, céu e terra, sol e lua, Batman e Robin. Sun Tzu utiliza essas metáforas (exceto a última) para enfatizar a necessidade não apenas de lutar abertamente contra qualquer inimigo (atacar a descoberto), pois isso apenas não garantiria a vitória. Seria necessário também utilizar-se de ações fugidias, como a espionagem, a dissimulação e a sabotagem, para, junto com os ataques diretos, obter a almejada vitória (vence em sigilo).

Embora destaque somente essas duas espécies de forças (escolha a dupla que melhor lhe convém, ou invente uma -- a ideia é a complementaridade), o chinês afirma que sua combinação é ilimitada e que, na prática, assemelham-se a uma cadeia de operações interligadas. Partindo para um exemplo menos misterioso, ele ensina que, na arte militar,
cada operação particular tem partes que exigem a luz do dia e outras que pedem as trevas do segredo. Não posso determiná-las de antemão. Só as circunstâncias podem ditá-las.
E mais uma vez (não pela última) nos deparamos com o cara falando das tais circunstâncias. Mais adiante, inclusive, neste mesmo capítulo V, ele traz o assunto à baila novamente, afirmando que um hábil comandante busca a vitória com base nas circunstâncias.

Da arte de comandar e de manipular o inimigo
Além deste assunto central, o capítulo ainda fala de outros dois pontos que aparentemente não tem muito a ver com o tema. Mas, creio, só aparentemente. O primeiro é mais uma lista, desta vez sobre os que "possuem verdadeiramente a arte de comandar". De acordo com o texto são os que:

  • souberam e sabem potencializar sua força
  • adquiriram uma autoridade ilimitada
  • não se deixam abater por nenhum acontecimento
  • nunca agem com precipitação
  • se conduzem com sangue frio
  • e agem sempre com a rapidez fruto de habilidade + experiência

O segundo ponto é algo tão trivial quanto pode ser "a arte de manipular os deslocamentos do inimigo". E aqui, mais uma vez, vale reproduzir o trecho, ipsis literis:
Aqueles que dominam essa arte admirável dispõem de ascendência sobre o próprio exército, de tal forma que manipulam o inimigo sempre que julgarem apropriado (...) dão e o inimigo recebe; abandonam e o inimigo recolhe. Estão prestes a tudo. Aproveitam-se de todas as circunstâncias.
Talvez, juntando tudo isso, a gente consiga entender porque os Jedis viviam dizendo aquilo que eles viviam dizendo. E que a força esteja com você!


Texto anterior
 - Século XXI, mundos altamente conectados e a arte do (des)encontro


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Da arte de se adaptar -- Missão Impossível, Tom Cruise e Sun Tzu

Paula Patton, Cruise e Léa Seydoux, ou, a gostosa 1, o samurai e a gostosa 2. Via VertigoPop.

Ontem assisti ao quarto filme da série Missão Impossível iniciada em 1996, com Tom Cruise. Filme típico de ação, bom de ver na tela grande do cinema, com um ritmo frenético e muitos elementos de humor, principalmente por conta de Simon Pegg, de Star Trek e Todo Mundo Quase Morto -- pra mim, a melhor parte do filme (tá bom, tem as duas gostosonas da foto).

Mas o que nos interessa é a relação que ele pode ter com o livro a Arte da Guerra. Fora a parte óbvia, da espionagem, dissimulação (deception), um elemento que chama a atenção e que tem muito a ver com os princípios estratégicos de Sun Tzu é a adaptação -- que, aliás, confere à película o ritmo videoclipe de que os filmes de ação de hoje em dia não mais prescindem.

Porque imprevistos acontecem
Quero dizer com isso -- adaptação -- que o general chinês preconiza não apenas que o comandante esteja preparado -- e mais bem preparado que o inimigo --, mas também que ele tenha uma capacidade extraordinária de se adaptar às circunstâncias impostas pelo andar da carruagem. Melhor dizendo, planeje, calcule, pense, reflita, aja, mas tenha sempre em mente que imprevistos acontecem e que mais cedo ou mais tarde você vai ser vítima deles.

Por esse prisma, Ethan Hunt (a personagem de Cruise) e sua equipe são verdadeiros mestres da guerra. Praticamente todos os planos, esquemas e táticas do grupo tiveram imprevistos mais ou menos cabeludos, e eles tinham que se adaptar às circunstâncias a cada 30 segundos, ou menos. Exemplo é a sequência em que eles tem que invadir um computador em um arranha-céu, mas descobrem aos 45 minutos do segundo tempo que não vão conseguir fazê-lo remotamente. Ou seja,  a única saída é acessar a máquina pessoalmente.

Fazer o quê? Bem eles inventam uma saída (literalmente, inclusive) e a sequência inteira, até o final dos encontros que haveria no hotel, é a síntese do que Sun Tzu quis dizer com "adapte-se". Não vou dar os detalhes para não estragar a festa de quem ainda não viu -- mas quem já viu saberá do que estou falando.

Outro filme, lembrei agora, que nos mostra claramente esse conceito -- mas inspirado em uma história real -- é o Apollo 13, com outro Tom, o Hanks. Quem não se lembra da célebre frase "Houston, temos um problema"? Aliás, você se lembra de algum outro filme no qual os princípios de A Arte da Guerra são eternizados pela sétima arte? Comente aí.

Abraços e inté+.


Texto anterior
 - Da Arte de Vencer Sem Desembainhar a Espada -- Capítulo III do livro A Arte da Guerra