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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Evolução dos fatos I -- os bons companheiros

Quer ser meu melhor amigo? -- via Lengua y Literatura
No post anterior, apresentei uma cronologia básica dos principais fatos que marcaram a época de Sun Tzu. Neste e nos próximos, vamos detalhar um pouco estes fatos, muitos dos quais ou farão parte da trama principal do livro ou terão uma função importante de contextualização da história.

Antes de irmos ao que interessa, gostaria de chamar a atenção para o termo wang, que utilizaremos doravante. Trata-se de um título de nobreza assemelhado a rei, que será usado neste blog para fazer referência aos chefes das províncias mais poderosas. Em tese, apenas o regente dos Chou (a dinastia que, também em tese, detinha a máxima autoridade) merecia e herdara título de tamanha envergadura, embora também recebesse o título de imperador.

Quero dizer ainda que a trama principal se passará no tempo que eu chamo de presente (da história, claro) e os relatos referentes a ela serão detalhados nos últimos desta série de posts. Estes que ora apresento são do passado médio. E ainda haverá os do passado próximo e longínquo, mas não se apoquente, cada coisa a seu tempo.

Isso posto, agora sim, vamos ao que interessa: a história gira em torno, principalmente, de dois reinos (ou principados, ou feudos, ou estados, ou províncias, ou outra coisa, ainda estou avaliando): Wu, onde Sun Tzu teria atuado como general, e Ch'u, um dos fodões da época.

Ao longo do século VII AEC, Ch'u incrementou seu poderio militar a ponto de subjugar muitas províncias menores, como Ts'ai, Shen e Cheng. Ao final do século, o total de pequenas províncias anexadas a seus domínios ou simplesmente destruídos alcançou a marca de 40, incluindo muitos que afirmavam ter ancestrais na linhagem imperial dos Chou -- a dinastia que detinha o poder (ainda que pratica e tão somente nominal) de Tudo Sob o Céu.

Desde que os Chou tiveram que mudar sua capital para o leste, dando início ao período da história chinesa conhecido exatamente como Chou do Leste (ou Oriental), a figura do imperador tornou-se cada vez mais enfraquecida, a ponto de, em determinado momento, o poder de fato ser exercido pelos vassalos, sob a liderança de um deles, conhecido como hegemônico. O primeiro vassalo a assumir este papel de liderança (em nome da dinastia, claro) foi o kung Huan, de Ch'i, cujo governo à frente do principado foi de 685 AEC até 634 AEC (kung, para todos os efeitos, é algo assemelhado a duque).

Ch'u continuava a alimentar suas ambições, o que não impediu sua derrota para os principados aliados Sung, Chin, Ch'i e Ch'in na famosa batalha de Ch'eng-P'u, em 632 AEC, ano em que seu território total já cobria mil li. A derrota fez com que Ch'u, pelo menos temporariamente, redirecionasse sua campanha expansionista para o sul e o sudeste, passando a dominar muitas províncias menores ao longo do rio Han. Esta mudança de rumos inevitavelmente fez com que Ch'u e Wu entrassem em rota de conflito.

No início do século seguinte, VI AEC, o principado de Chin (que era outro dos fodões da época, ao lado de Ch'u) teve a audácia de formar "seis exércitos", usurpando uma prerrogativa imperial dos Chou. Tornou-se também mais uma província cujo wang aclamava-se hegemônico.

Não muito tempo depois, em 585 AEC, Shou-meng torna-se o primeiro governante de Wu a assumir o título de wang. Isso é outro passo desta província em direção ao estilo administrativo mais formal empregado no norte. Também representa um claro esforço no sentido de aumentar seu prestígio e acaba por colocar mais uma pedra no sapato de Ch'u.

As províncias do norte também testemunharam o nascimento de outros wang, embora muitas ainda fossem governadas apenas por kung ou nobres menores.

Diplomacia em tempos de guerra
Também em 585 AEC, Wu monta uma campanha que atravessa mil li para atacar e derrotar o pequeno principado de T'an, demonstrando seu crescente poder. Isto chama a atenção de Chin, que lhes propõe uma aliança, já em 584 AEC, por meio do envio de uma comitiva com 9 carruagens e 125 guerreiros e oficiais, liderada por Wu-ch'en, o kung de Shen.

O fato é que Chin obtivera um razoável sucesso em seus esforços para conter Ch'u. No entanto, ao se deparar

  • com a ameaça advinda do poder crescente de Ch'in, a oeste, 
  • com suas próprias disputas internas e 
  • com o rápido declínio de seu prestígio, 

resolveu desenvolver uma alternativa externa ao poder de Ch'u. Por isso, o envio da comitiva a Wu, já que sua força cada vez maior sugeria a possibilidade de uma parceria construtiva entre ambos.

Além da concretização da aliança, a visita tinha o objetivo explícito de apresentar a Wu a carruagem e as técnicas de combate em solo das províncias do norte. No entanto, o verdadeiro impacto e a efetividade das instruções de Wu-ch'en são discutíveis, já que forças navais e de infantaria continuaram a predominar em Wu, com as carruagens sendo mencionadas apenas esporadicamente nos textos históricos que dão conta de suas diversas batalhas.

Ataques importantes de Wu contra Ch'u foram lançados a partir de rotas aquáticas, ou pelo menos cruzando grandes rios, de modo que barcos para transporte eram inevitavelmente necessários. Isto era um limitador para o número de carruagens empregadas, já que elas eram difíceis de ser carregadas. Assim, as unidades de infantaria invariavelmente desempenhavam o papel central.

Esta visita marca, ainda, um ponto de virada no que diz respeito à correlação das forças militares e, pelo menos de forma simbólica, insere Wu culturalmente na esfera das províncias civilizadas. Além disso, Wu-Ch'en torna-se o primeiro "conselheiro convidado" a ser recebido em Wu, iniciando ali uma tradição que posteriormente resultaria na "contratação" de Wu Tzu-hsü e Sun Tzu.

And that's all, folks! No próximo texto vamos continuar desenvolvendo essa história até a famosa batalha de Chi-fu (não confundir como mestre de Po, em Kung Fu Panda), ou um pouco antes disso.

Hasta!



Próximo texto - A caminho

domingo, 17 de novembro de 2013

30 fatos que marcaram a época de Sun Tzu

Snoopy escritor, improvável inspiração -- via Peregrinacultural Weblog
Quando agente lê um livro ou mesmo assiste a um filme, nem imagina o trabalho que dão para ser escritos. Bem, pelo menos nos casos em que o autor resolve proporcionar um mínimo de embasamento à sua imaginação insana, como são as obras do best seller Dan Brown (O Código da Vinci, Anjos e Demônios, etc). Preparando-me para escrever meu primeiro livro, agora eu não apenas imagino, tenho certeza. 

Não sei se estou fazendo acoisa certa -- nem se há uma coisa certa a fazer quando se trata de escrever um livro --, mas fato é que estou tendo um trabalho danado de pesquisa. O livro será um romance histórico, inspirado na vida e obra de Sun Tzu, general chinês que teria vivido há uns 2,5 mil anos e é o reputado autor d'A Arte da Guerra.
 
Para tentar capturar o máximo possível de informações sobre ele e sua época, já devo ter lido material suficiente para um mestrado, de modo que passa da hora de organizar esta bagunça. E é isso que pretendo fazer ao longo de diversos textos que passarei a publicar daqui por diante. 

O plano é mais ou menos o seguinte:
  1. escrever uma cronologia da época, com o maior número de detalhes possível
  2. relacionar os personagens, suas características e histórias pessoais
  3. relacionar os principais estados envolvidos, com um resumo de sua história e características
  4. escrever o enredo (depois de definir qual será, obviamente) e
  5. juntar tudo
Neste momento, vou apresentar uma cronologia básica, compreendendo principalmente a segunda metade do Período da Primavera e Outono. Em textos subsequentes, devo apresentar alguns dos principais personagens e estados envolvidos. Quanto ao enredo e ao "juntar tudo", você provavelmente vai ficar sabendo quando o livro estiver pronto, embora eu possa deixar algumas pistas por aí. Quem sabe até um trecho ou outro do que eu escrever... mas isso é coisa para depois, agora vamos ao interessa.

Antes, no entanto, algumas observações: 1) esta primeira versão foi baseada exclusivamente na tradução d'A Arte da Guerra feita para o inglês por Ralph Sawyer, e em suas respectivas anotações; 2) quando me refiro a estado, imagine um país qualquer da Europa feudal, com o rei e seus vassalos e o território dominado por eles (território dos vassalos = estado; rei = dinasta); 3) no período em questão, o chefe da dinastia Chou possuía um poder tão somente simbólico, ficando o poder de fato nas mãos do vassalo mais poderoso, chamado hegemônico.

Cronologia antes de Sun Tzu
Séc. VII AEC - o estado de Ch'u torna-se militarmente ativo e subjuga outros estados menores, como Ts'ai, Shen e Cheng.

685 AEC - início do reinado de Duque Huan, de Ch'i; ele viria a se tornar o primeiro hegemônico da dinastia Chou do Leste e seu governo segue até o ano de 634 AEC.

632 AEC - os estados aliados Sung, Chin, Ch'i e Ch'in derrotam Ch'u na famosa batalha de Ch'eng-P'u (neste ano, o território total de Ch'u já cobria mil li).

Início do séc. VI AEC - o estado de Chin formara "seis exércitos", usurpando uma prerrogativa Real dos Chou, aclamando-se hegemônico (os que detinham poder de fato, já que os Chou o possuíam apenas nominalmente).

585 AEC - Shou-meng torna-se o primeiro governante de Wu a assumir o título de Rei.

- Wu monta uma campanha que atravessa mil li,  para atacar e derrotar o pequeno estado de T'an, demonstrando seu crescente poder.

584 AEC - Chin envia Wu-Ch'en, duque de Shen, com 9 carruagens e 125 guerreiros e oficiais, a Wu; o objetivo expresso era apresentar a este último a carruagem e instruí-los nas técnicas de combate em solo dos Estados do norte.

- Wu monta seu primeiro ataque preventivo contra um subordinado de Ch'u, o Estado de Hsü -- doravante, durante as próximas 6 décadas haveria confrontos freqüentes entre Wu e Ch'u, enquanto ambos aspiravam a dominar a região.

576 AEC - Wu recebe reconhecimento formal de Chou.

575 AEC - Chin derrota novamente Ch'u.

544 AEC - nascimento de Sun Tzu.

541 AEC - o comandante de Chin fez com que suas forças de carruagens desmontassem e travassem batalha, como forças de  infantaria, contra soldados "bárbaros" que lutavam a pé.

538 AEC - por conta da crescente agressividade de Wu, Ch'u passa a empreender grandes construções defensivas, inclusive cidades amuralhadas e fortificações diversas.

537 AEC - Ch'u é derrotado após montar um ataque em larga escala contra Wu, em conjunto com vários estados subalternos e contando com o apoio de Yüeh; o conflito marca o primeiro confronto entre Wu e Yüeh.

521 AEC - Wu trava batalha com o estado setentrional de Ch'i, sofrendo uma perda temporária de dois exércitos.

519 AEC - é travada a famosa batalha de Chi-fu, última grande entre Ch'u e Wu antes de Sun Tzu iniciar suas atividades militares neste último (pouco depois desta batalha,  Wu Tzu-hsü é forçado a emigrar de Ch'u para Wu,  devido às maquinações de Fei Wu-chi).

514 AEC - Ho-lü ascende ao trono de Wu e muda sua capital para Su-ku.

Cronologia depois de Sun Tzu
512/511 AEC - início das atividades militares de Sun Tzu, de acordo com os registros históricos tradicionais (entrevista com o rei Ho-lü e treinamento de suas concubinas).

- início de campanhas praticamente anuais de Wu contra Ch'u.

- Wu lança um ataque vitorioso a Shu, Estado pertencente a Ch'u.

510 AEC - Wu realiza sua primeira investida contra Yüeh.

509 AEC - Ch'u decide tentar um ataque contra Wu,  apenas para se ver derrotado e perder diversas cidades.

- o primeiro ministro de Ch'u, Nang Wa, aprisiona os regentes de Ts'ai e T'ang.

506/504 AEC - nova batalha entre Wu e Ch'u,  desta vez resultando em vitória deste último e na retirada do rei de Wu de volta a seu estado.

- os regentes de Ts'ai e T'ang são libertos, devido a pressões diplomáticas de Estados aliados a Ch'u, especialmente Chin; durante o retorno para casa, num ato de vingança, o marquês de Ts'ai ataca o estado de Shen e assassina seu regente (Wu ganha aliados no coração dos domínios de Ch'u).

- após uma série de ataques, Wu finalmente invade a capital de Ch'u, Ying, com o apoio de seus novos aliados, Ts'ai e T'ang.

- Ho-lü permanece em Ying, enquanto Fu-kai, seu irmão mais novo, volta a Wu e se proclama rei.

- ao saber disso, Ho-lü retorna a Wu e monta um ataque repentino e vitorioso contra Fu-kai, que foge para Ch'u, onde é recebido como aliado.

- o rei de Ch'u, Chao, aproveita-se da situação, retorna à capital Ying e orquestra um ataque vitorioso contra Wu, forçando Ho-lü a retornar para Wu (ainda não consegui descobrir se após derrotar Fu-kai Ho-lü volta a Ying ou se a batalha é travada fora dos limites de Wu, mais provável algo parecido com este último -- fico devendo esta).

- em um ataque coordenado por Fu-ch'ai, herdeiro de Ho-lü, e pelo rei em pessoa,  [a cidade? de] P'a é tomada por Wu, forçando Ch'u a mudar sua capital de Ying para Jo (também estou por descobrir, ou decidir, se P'a é uma cidade ou uma pessoa).

- após a conquista da capital de Ch'u, Ying, não há mais registros históricos sobre Sun Tzu, embora estudiosos acreditem que ele tenha permanecido em atividade em Wu até o ano 496 ou 482 AEC.

500 AEC - Confúcio torna-se ministro do estado de Lu.

496 AEC - morte provável de Sun Tzu.

Para concluir, informo que estes são apenas alguns dos principais eventos do período e são focados principalmente nos estados de Wu e Ch'u por razões quase óbvias. Ainda acrescentarei outros marcos, incluirei zilhões de detalhes, enxertarei os personagens, o enredo e a, finalmente, literatura.

Ao final, espero, sairá algo que vale a pena ler. Ciao!



    domingo, 3 de novembro de 2013

    Gladiador e local de morte

    "...coloque [os soldados] no terreno da morte e eles lutarão. O resultado será a conversão de uma derrota certa em uma vitória inesperada."

    E aí, vai encarar? Arte de Alex Nazato, via Studio Canvas
    Um dos conceitos mais interessantes, e também cruéis, apresentados no livro A Arte da Guerra é o de lugar (ou local) de morte (ou mortífero, ou mortal). Sem meias palavras,  no capítulo XI (Os Nove Territórios) Sun Tzu venenosamente destila o conselho de  situar as tropas num território mortal,  "para que elas não tenham saída e lutem ferozmente"

    Claro que isso vai depender das dependências, mas a idea básica permanece: se houver necessidade, joga os soldados na cova dos leões e deixa a taboca rachar. Provavelmente eles vão pensar algo do tipo: "eu já estou morto mesmo, então vou levar uns quinze nazistas safados comigo e causar muito estrago".

    Conscientemente ou não, Hollywood tem se mostrado extremamente capaz de apresentar situações deste tipo. Invasões alienígenas são um clássico exemplo; filmes catástrofe também; quando ambos os temas se juntam num só filme, aí estamos falando de uma história do Roland Emmerich com Will Smith no papel principal (ou algo muito parecido com isso).

    No entanto, gostaria de fazer referência aqui a dois que me agradam deveras mais que este aí em cima: 300 e Gladiador. Não coincidentemente, filmes que, bem ou mal, retratam momentos interessantes de duas grandes e antigas nações que já podiam receber a alcunha de potências quando Sun Tzu ainda nem sabia o que era guerra, ou estarei eu escrevendo besteira? (por favor, não responda...)

    Pão e circo
    Gladiador conta a história de um general romano, Maximus, que é traído pelo filho do falecido Cesar e, após as idas e vindas cinematográficas de praxe, acaba se tornando um gladiador, "condenado" a lutar no famoso, famigerado e fatídico Coliseu. Vamos combinar que poucas coisas no mundo poderiam representar o lugar de morte de que fala Sun Tzu tão bem quanto a grandiosa arena.

    Se não, vejamos:
    • você pega um punhado de caras marombados, mas (teoricamente) sem preparo militar
    • joga num lugar fechado (de onde não há como escapar) e 
    • bota eles pra lutar contra feras mortíferas e soldados altamente preparados e equipados. 
    Tirando as feras mortíferas, quem você acha que vai lutar com mais gana e vontade: os soldados romanos relaxados e confiantes na vitória certa ou os bárbaros maltrapilhos conscientes de que estão no lucro só por ainda estarem de pé?
    No caso do filme, junte a isto o elemento surpresa (ex-general romano sagaz "comandando" os párias da arena) e voilá! Acabamos de converter "uma derrota certa em uma vitória inesperada".

    Lutando no escuro
    Em 300, filme baseado na obra do mestre Frank Miller (por sua vez inspirada em fatos históricos), uma tropa com 300 soldados de elite do rei Leônidas de Esparta marcha rumo às Termópilas, a fim de colaborar com outros 6,7 mil guerreiros. O objetivo? Nada menos que defender a Grécia de um ataque de 300 mil persas comandados por Xerxes. O próprio Leônidas lidera os trezentos, e os gregos são dispostos de tal modo que eles só têm duas opções: lutar e morrer ou lutar e morrer

    Neste caso, eles não se deram lá muito bem, muito por conta de dois fatores:
    • as forças persas eram extraordinariamente superiores, numérica e belicamente , e
    • os gregos ignoraram diversos outros preceitos importantes d'A Arte da Guerra
    No entanto, antes de serem dizimados, foram capazes de despachar uma penca parruda de persas para as profundezas do bom e velho Hades. No mais, tudo isso e outras coisitas abordadas por Sun Tzu tem a ver com um negócio chamado ch'i, mas isto já é assunto para outro post. Hasta!



    quarta-feira, 16 de outubro de 2013

    Da arte de criar as próprias circunstâncias

    Dani Targaryen e um de seus pets -- arte de Daniel Moreira via Daniel Artwork

    Você que acompanha o blog desde o início deve ter percebido que eu faço muitas associações entre o que diz Sun Tzu e o que vejo por aí (principalmente) em livros, filmes e séries de TV. Exemplos disso podem ser vistos aqui e aqui.

    É provável também que tenha percebido uma "quase" obsessão com a saga das Crônicas de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire), mais conhecida no Brasil pelo nome que recebeu a série de TV: Game of Thrones (Jogo dos Tronos). Obviamente que esta presença marcante não é mero acaso.

    Os livros, muito bem escritos, contam uma história de poder ambientada num mundo fictício, com muitos elementos medievais e outros tantos que parecem saídos diretamente das páginas de As Mil e Uma Noites. As personagens são maravilhosamente bem construídas e a trama é de tirar o fôlego. Quando me perguntam como é essa história, costumo dizer sem floreios que se trata de O Senhor dos Anéis para gente grande.

    A adaptação para a TV é muito bem produzida e possui um nível de fidelidade aos livros sem precedentes. Claro, adaptação é adaptação e há alguns ajustes em e relação aos livros, mas nada que deixe os fãs (muito) revoltados.

    Mas o que explica mesmo as aparições frequentes da estória e personagens de George Martin no blog são as situações que, quando não se encaixam como uma luva nos preceitos d'A Arte da Guerra,  tem tudo a ver com o que dizia o não menos maquiavélico Nicolau. Ou, melhor ainda, com as ideias de ambos ao mesmo tempo, do italiano e do chinês. E é aqui que chegamos ao ponto central deste post, no caso, as já famosas circunstâncias.

    Mongois, dragões e uma loira fogosa
    Daennerys Targaryen é, até o momento, uma das principais personagens da estória e tem por meta, assim como outras personagens importantes, ascender ao trono de Westeros. Naturalmente, sua aspiração é mais do que legítima, já que estamos falando de ninguém menos que a filha do rei louco (e morto) de quem o trono fora usurpado; e já que também seu irmão mais velho, Viserys, fica um tanto quanto impossibilitado de exercer a prerrogativa que seria sua por direito.

    Acontece que, até o presente momento, as circunstâncias não permitem que ela avance em direção ao que lhe pertence. Ora, para Sun Tzu, esse negócio de circunstâncias e uma moeda de duas faces são a mesma coisa. Digo, ao mesmo tempo em que é necessário estar preparado para se adequar às circunstâncias -- e isso Daennerys tem feito com bastante jogo de cintura -- também se deve buscar criar as circunstâncias de que se precisa para alcançar o objeto de desejo. E é disso que estamos falando neste exato momento.

    No início da sua "carreira", a mocinha era um tanto quanto inocente, mas após ser vendida como noiva pelo próprio irmão ao chefe de um clã "mongol", de se ver obrigada a aprender como agradá-lo na cama, acompanhar sua queda e ver a própria gravidez ir para o escambau, além de outras intempéries, foi perdendo a inocência e ganhando o jogo de cintura a que me referi ali em cima. Não demorou muito e ela percebeu que deveria tomar as rédeas da própria vida, caso quisesse voltar a Westeros por cima da carne seca.

    Com a ajuda de três animaizinhos de estimação, de um fiel cavaleiro e de meia dúzia de seguidores, avançou em seu plano pela via indireta (Sun Tzu também fala disso, mas fica para outro post, talvez). No lugar de retornar imediatamente para sua terra natal, aproveitou o limão que tinha e foi atrás de água suficiente para fazer uma puta limonada.

    Aos poucos, fez novos aliados e inimigos, reafirmou velhas amizades, incorporou um exército altamente treinado à sua corte, pôs ao chão uma cidade-estado e libertou do jugo milhares de escravos. Tudo isso do outro lado do mundo, enquanto apareciam zilhões de oportunidades de retornar ao seu querido, mas nunca conhecido, lar.

    Ao final da terceira temporada da série, a menina prodígio está a ponto de conquistar mais uma cidade, já deixou muito figurão no meio do caminho e começa a chamar a atenção dos demais postulantes ao trono. Coisas que, tivesse ela ignorado os ensinamentos da sabedoria militar chinesa, jamais teria alcançado, ficando longe, muito longe, da corrida maluca pelo comando supremo dos sete reinos.

    Então #ficadica: adapte-se às circunstâncias, crie as suas próprias e não deixe de conferir As Crônicas de Gelo e Fogo (pra quem curte uma boa leitura) ou Game of Thrones (pra quem não desgruda da TV).

    Dracarys!



    Texto anterior - A China antes da China

    A China antes da China

    Mais ou menos assim era a China de Sun Tzu -- via Wikipedia

    Agora que fiz um apanhado geral dos treze capítulos d'A Arte da Guerra, vou passar a publicar aqui um monte de textos sobre o que tenho pesquisado da China antiga. Muito deste material será usado no livro e, alguma coisa, até de forma literal (de modo que peço muito gentilmente para você não ficar chateado se, quando estiver lendo o livro, tiver uma leve sensação de déjà vu).

    Para início de conversa, é necessário esclarecer um ponto importantíssimo: a China que a gente acha que era China quando Sun Tzu era vivo, na verdade, não era China. Explico: até o ano 221 BCE existia ali naquela região muitos pequenos Estados, bem ao estilo Europa feudal, que por acaso tinham alguns traços étnicos e culturais em comum.

    Ou seja, havia um monte de pequenas Chinas onde hoje é um pedaço da grande China, que ninguém na época chamava assim. E o que aconteceu em 221 que, mais uma vez, alterou os rumos da história? Bem, um dos estados mais poderosos de então, Qin, conseguiu dominar politica e militarmente todos os outros, unificando pela primeira vez os reinos considerados civilizados sob um único estandarte -- se bem que esse império nascente compreendia apenas uma parte do atual território da China.

    A cronologia até a unificação é mais ou menos a seguinte:

    • Período Neolítico: cerca de (ca.) 6000 a ca. 1750 AEC
    • Período Erlitou: ca. 1750 a ca. 1500 AEC (ainda há dúvidas se fazia parte da Dinastia Shang ou não)
    • Dinastia Shang: ca. 1500 a ca. 1050 AEC
    •      Período Erligang: ca. 1500 a ca. 1300 AEC
    •      Período Anyang: ca. 1300 a ca. 1050 AEC
    • Dinastia Zhou (ou Chou) do Oeste: ca. 1050 a 771 AEC
    • Dinastia Zhou (ou Chou) do Leste: 771 a 221 AEC
    •      Período da Primavera e Outono: 771 a 475 AEC
    •      Período dos Estados Combatentes: 475 a 221 AEC
    Veja que as datas situadas entre o período Neolítico e o início da dinastia Zhou são aproximadas, já que ainda há muitas incertezas arqueológicas, e os textos históricos não são lá muito confiáveis. Note também que a Dinastia Zhou do Leste é subdividida em dois períodos: Primavera e Outono e Estados (ou Reinos) Combatentes.

    Flores despertas e folhas cadentes
    Se "o" Sun Tzu existiu mesmo, e se os poucos antigos textos que o citam estão corretos, ele nasceu, viveu e morreu no Período da Primavera e Outono, mais (quase) precisamente entre 544  AEC (nascimento) e 496 AEC (morte). Ou seja, (independente da acuracidade histórica) a história que escrevo se passará principalmente neste período, que nada mais é do que a primeira parte da dinastia Zhou do Leste.

    A diferença entre esta e a do Oeste, que é anterior (dá pra ver na cronologia acima), diz respeito a duas questões:

    • a primeira, que marca a nomenclatura, é a mudança da capital da dinastia da região Oeste (Chang'an ou Xi'an) da então "China" para a região leste (Luoyang, o que é quase óbvio, não?)
    • a segunda, que está intrinsecamente ligada à primeira, trata do poder efetivo do dinasta: no primeiro período, o do Leste, tal poder era fato; no segundo, apenas nominal, já que a mudança de capital, por conta de um ataque bem sucedido, foi realizada com a ajuda dos vassalos, que passaram a alternar o governo do "mundo civilizado" em nome do "rei".
    Também foi durante o Período da Primavera e Outono que viveu um dos maiores ícones da China, Kung Fu Tzu, que você provavelmente conhece como Confúcio (em inglês, Confucius). Note que seu nome no original também tem a mesma partícula do nome de nosso personagem: Tzu (cuja pronúncia assemelha-se a "zi". A explicação é simples: Tzu não é um nome, e sim uma espécie de título, que pode significar nada menos que "mestre". Por isso que, em muitos textos sobre Sun Tzu, os caras fazem referência a ele como "mestre Sun", ou simplesmente "mestre".

    Uma dificuldade que tenho nas minhas pesquisas sobre este período, além do fato de haver fortes evidências de que "o" Sun Tzu não existiu e de que o livro atribuído a ele foi escrito após seu suposto tempo de vida, é a pouca informação disponível na internet sobre justamente o Período da Primavera e Outono. Nem os livros chineses antigos sobre este período consigo encontrar na rede.

    Um exemplo, são os anais supostamente escritos por Confúcio, que deram nome ao primeiro período da dinastia Zhou do Leste (Anais da Primavera e Outono, ou Chunqiu em chinês) e que contam a história de Lu, Estado onde ele teria nascido e vivido. Claro que não trato isso como um impedimento. É mais um desafio que, se não for vencido, será outro caso que se enquadra naquela famosa frase do não menos famoso Albert Einstein:

    A imaginação é mais importante que o conhecimento.

    (E longe de mim querer ser comparado a um Jules Verne ou Isaac Asimov. Eu, hein!)


    quarta-feira, 25 de setembro de 2013

    O Uso de Espiões -- Capítulo XIII do livro A Arte da Guerra

    O uso da espionagem é um tema delicado, muito delicado! Não existe lugar em que a espionagem não possa ser empregada.
    Acho que o Obama não entendeu este capítulo, né Snowden? -- via viomundo
    Antes de James Bond, Jason Bourne, Ethan Hunt e Austin Powers havia a história, as guerras e seus inúmeros personagens. Destes, dos personagens das guerras, os que talvez provoquem maior fascínio nas pessoas sejam os famosos (e também os desconhecidos) espiões. E, perceba, não estou falando apenas das guerras mundiais e fria do século XX. Mesmo em épocas mais antigas, os espiões já eram considerados peça fundamental nos tabuleiros dos jogos bélicos.

    Em sendo assim, é nada mais do que natural este assunto marcar presença no mais antigo tratado militar conhecido: A Arte da Guerra. É exatamente disso que trata o capítulo XIII, e derradeiro, do livro. E a necessidade do uso de espiões gira em torno, novamente, de um dos temas centrais e recorrentes do tratado: conhecer o inimigo. Sun Tzu deixa isto claro logo no terceiro e quarto parágrafos:

    Um governante esclarecido e um general sábio são vencedores porque suas ações se baseiam em suas vidência.

    A vidência não pode ser a alcançada por meio de espíritos, nem deuses, nem por analogia com o passado, nem mesmo por cálculos; depende, exclusivamente, dos homens que conhecem o inimigo.

    A partir daí, nos informa que existem cinco tipos de espiões:

    1. nativos, que seriam camponeses do povo inimigo a serviço do nosso exército
    2. internos, oficiais inimigos empregados em nosso exército
    3. duplos, espiões inimigos que empregamos em nosso exército; eles seriam recrutados entre os espiões que trabalham para o inimigo
    4. dispensáveis, espiões nossos a quem entregamos informações falsas de propósito
    5. vivos, os que voltam com informações sobre sobre o inimigo

    A julgar pela atenção dada ao terceiro tipo, este seria o grupo mais importante de espiões. Afinal, de acordo com Sun Tzu, são eles que aliciam os espiões nativos e internos, é por meio deles que podem ser enviados, com informações falsas, espiões dispensáveis ao coração do inimigo e também é utilizando-se de sua expertise que se pode empregar os espiões vivos, quando necessário. Tudo isso é dito dos espiões duplos e nada mais dos restantes.

    Sobre os duplos, o chinês ainda diz:

    É indispensável descobrir os espiões que trabalham para o inimigo; suborna-os, e tente fazê-los passar para o seu lado. Cuide bem deles e os oriente. Eles se tornarão espiões duplos.

    Os espiões que ninguém (?) amava
    Naturalmente, o uso de espiões não é pra todo mundo. Há que ser ter, no caso do soberano, algumas qualidades úteis não apenas para lidar com espionagem, mas com a própria arte de governar, vamos assim dizer. Em todo caso, é preciso ser delicado, sutil, "sábio ou esperto, humano e justo" para poder usá-los e deles extrair informações. Além disso, o governante deve conhecer pormenorizadamente as atividades dos cinco tipos de espiões (conhecimento que, obviamente, será garimpado pelos espiões duplos). Não por acaso, o Aranha e o Mindinho são personagens tratados com toda atenção e cuidado (mas nem tanto carinho) pelos players do Game of Thrones (é, de novo).

    Quanto ao comandante, ele deve ser íntimo dos espiões a serviço no exército, e estes devem receber, por seus prestimosos afazeres, as melhores recompensas. Eu particularmente diria que uma boa parte da parte boa do butim deve ir pra esses caras. Assim será possível garantir a realização de grandes feitos, por conta do uso de pessoas inteligentes como espiões.

    Para deixar isso claro, Sun Tzu recorre à boa e velha história, e nos relembra que ascensão das dinastias Yin e Zhou foi possível graças a ninguém menos que o MI5 e a CIA Yi Chih e Luyu, respectivamente. Diga-se de passagem que pelo menos o Yi Chih parece ter lastro histórico, ou, melhor dizendo, não se trata de uma ficção criada pelo autor chinês para marcar seu ponto de vista.

    Diversos textos chineses antigos corroboram a existência do cara e, inclusive, sua atuação como espião. Contemporaneamente, Ralph Sawyer, em seu meticuloso Ancient Chinese Warfare, faz referência a uma passagem do Lu-shih Ch'un-ch'iu, texto histórico do século III aec, que retrata o momento crucial no qual ele é convertido a espião e enviado a campo.

    Mas isto já é assunto para outro dia. Enquanto isso, altere a senha do seu computador e tome muito cuidado com o que fala ao telefone.

    Inté!


    Próximo texto - A China antes da China

    domingo, 28 de julho de 2013

    Ataque com Fogo -- Capítulo XII do livro A Arte da Guerra

    Bons governantes deliberam planos, e bons generais os executam.
    E que a musa dos ataques incendiários nos ajude com nossos planos -- via Poetizando
    Embora não tenham sido os chineses a descobrir como criar e controlar o fogo, e eles só viessem a inventar a pólvora muito tempo depois de Sun Tzu, utilizavam o fogo como um poderoso recurso nas refregas e contendas da época. Tanto que um especialista em assuntos bélicos da China escreveu um livro dedicado ao uso, na guerra, deste elemento e do seu primo mais frio (por assim dizer), a água.

    Assim, dificilmente o antigo tratado de estratégia militar deixaria de abordar este tema, embora, misteriosamente, dedique apenas um pequeníssimo pedaço de frase à questão da água:
    Quem utiliza o fogo em seus ataques é inteligente; quem utiliza as inundações é poderoso.
    E acrescenta:
    A água pode isolar o inimigo, mas não destrói suas provisões e equipamentos.
    Fica mais ou menos aparente que ele define aqui uma hierarquia, com o fogo garantindo para si, na mente do estrategista, um lugar mais auspicioso que o precioso líquido. Corrobora esta hipótese o fato de metade do capítulo ser dedicado às artes piromaníacas.

    Pra começar, ficamos sabendo que existem cinco meios de atacar com fogo: 1) queimar pessoas, 2) provisões, 3) equipamentos, 4) arsenais e 5) ataques incendiários. Além de conhecê-los, deve-se estar sempre vigilante com a sua execução.

    Para quase terminar nos é apresentado o já tradicional rol de conselhos:
    1. Manejar com cuidado
    2. Manter o equipamento necessário sempre à mão
    3. Dias com clima seco, calor escaldante e ventos fortes (ah, Palmas!) são os mais apropriados para fazer fogo
    4. Acompanhar o movimento do fogo e iniciar e ataque quando ele irromper no acampamento inimigo (avançar quando o fogo atingir o auge)
    5. Atear fogo nas imediações da acampamento inimigo
    6. Não atacar contra o vento, se o fogo for ateado a favor
    7. Se o vento soprar de dia, cessará à noite

    Como se vê, alguns beiram o ridículo, de tão óbvios; outros, necessitam de um pouco mais de tutano ou de informação para ser melhor compreendidos. Em se tratando de Sun Tzu, claro, não poderia ser diferente. Como também não poderia ser diferente que...

    para terminar...
    ele passe a falar de coisas que não tem nada a ver com o tema central do capítulo, tais como não se aproveitar de vantagens advindas das vitórias nas batalhas, falha conhecida na época como um "atraso dispendioso" (aliás, isso me lembra, de novo, uma certa série de TV que já mencionei neste humilde blog - dica: tem a ver com jogos e com tronos).

    No meio desta bagunça há um trecho que, no fim das contas, trata do que hoje conhecemos como "profissionalismo". Ao aconselhar o soberano a agir somente dentro dos interesses do Estado, explica:
    Um soberano não pode convocar o exército só por raiva, e um general não pode lutar apenas por vingança. Uma pessoa com raiva pode recuperar a serenidade, e o ressentido pode ser apaziguado, mas um Estado arruinado não se recupera, e os mortos não podem voltar à vida.(Obviamente, acabo de ter a idea de usar este trecho como base para um diálogo no livro...)
    O gran finale vem, então, com a #ficadica de que, por conta disso, "o governante sábio é prudente, e o bom general é ponderado", garantindo, assim, a segurança do Estado e a firmeza do exército. E este acaba sendo, naturalmente, mais um indício de que Bonaparte não leu A Arte da Guerra, ou, se leu, não prestou muita atenção.

    Hasta e inté!


    quarta-feira, 17 de julho de 2013

    Os Nove Territórios -- Capítulo XI do livro A Arte da Guerra

    Uma operação militar deve ser como uma cobra veloz, que quando tocada na cabeça ataca com a cauda; quando tocada na cauda, ataca com a cabeça e quando é tocada no meio, ataca com a cabeça e com a cauda.
    Seria isso um território de fronteira? Via Caiman (Helder Brandão)
    Gente, confesso que se A Arte da Guerra fosse uma dissertação de mestrado e eu, o orientador do Sun Tzu, já teria perdido a paciência com o cara. Mais uma vez, ele me começa bem um capítulo e, sem mais nem menos, envereda por caminhos completamente alheios ao proposto.

    Obviamente, é o caso deste capítulo, que pode ser dividido em pelo menos duas partes: na primeira, se discutem, de fato, os nove territórios do título; na segunda, voltam à ribalta diversos conceitos já analisados anteriormente. A conversa sobre territórios, embora apresente alguns elementos da discussão sobre terrenos, trata de um conceito mais amplo. No entanto, assim como o capítulo anterior, nos brinda com uma relação objetiva.

    Temos, pois, os territórios disperso, de fronteira, chave, aberto, de intersecção, perigoso, difícil, cercado e mortal. Sun Tzu explica:
    1. Disperso - onde os grupos locais lutam entre si
    2. De fronteira - no qual se penetra, mas não muito
    3. Chave - igualmente vantajoso para ambos os lados
    4. Aberto - onde todos entram e saem como desejado
    5. De intersecção - um Estado cercado por outros três inimigos, que confere a "vantagem celeste" a quem dele se apoderar
    6. Perigoso - no qual se penetra fundo em terras estranhas, deixando muitas vilas inimigas para trás Cercado - apertado e sinuoso, no qual uma pequena tropa inimiga, mesmo estando em inferioridade, pode atacar
    7. Mortal - onde um exército sobrevive apenas se lutar desesperadamente
    Claro, também nos é dado saber como nos portarmos em relação a cada tipo de território. Nas palavras do próprio mestre:
    Não lute em territórios dispersos; não pare em territórios de fronteira; não ataque um território chave; não interfira em territórios abertos; em territórios de intersecção, faça alianças; em território perigoso, saqueie; em território difícil seja rápido; em territórios cercados faça planos; em territórios mortais, lute.

    Locais de morte, ou mortais, ou mortíferos...
    Do que foi dito acima, um conceito parece destacar-se no que se refere a territórios ou terrenos: o de local mortífero. Tanto que, em mais dois momentos neste capítulo, tais tipos de lugar são referenciados.

    No primeiro, aparentemente no contexto de levar a cabo uma invasão, o conselho é situar as tropas num território mortal,  "para que elas não tenham saída e lutem ferozmente". Assim, os "guerreiros darão o melhor de suas forças", farão o impossível diante do inesperado, "não temerão o perigo, e ficarão firmes".  Em outras palavras, por não ter opção, lutarão até a morte.

    O segundo momento surge quando se fala no comando das tropas, em fazer com "que o exército seja como um só homem". Entre outras iniciativas, deve-se usar os soldados para "conseguir vantagens sem lhes revelar os perigos; (...) coloque-os no terreno da morte e eles lutarão". O resultado será a conversão de uma derrota certa em uma vitória inesperada.

    Ainda sobre essa questão, são abordadas claramente as consequências de se colocar o exército em tal situação:
    Com um exército assim,  poucas regras são necessárias. Não é preciso ordenar aos soldados que sejam vigilantes. O general tem o seu apoio sem pedir; tem sua dedicação, sem a exigir; tem sua lealdade e amizade espontaneamente.
    O outro lado da moeda seria a provocação, por parte do general, de situações semelhantes a se colocar o exército em locais de morte. Exemplo disso ocorre quando, ao marcar a data da campanha, corta-se o regresso das tropas, "tal como se tira uma escada debaixo dos pés".

    Às luzes da ribalta
    O restante do capítulo apresenta alguns novos conselhos e, como já disse, trás de volta à luz outros já discutidos em momentos anteriores. Um exemplo eloquente assegura que bons estrategistas devem fazer com que o inimigo perca contato entre a vanguarda e a retaguarda, a confiança entre os pequenos e os grandes, a mútua cooperação e o entendimento entre subalternos e oficiais.

    Também trata da questão da velocidade (já discutida aqui), da proibição de oráculos,  administração das tensões, adaptação constante, mais qualidades do general, necessidade de frustrar (inclusive por meio do engodo) e conhecer os planos do inimigo, entre outras coisitas deveras úteis.

    Como podemos perceber, o palco da guerra está quase armado e a hora da estreia se aproxima a passos (não tão) largos. Mesmo assim, que rufem os tambores!



    Texto anterior - O Terreno -- Capítulo X do livro A Arte da Guerra

    domingo, 16 de junho de 2013

    O Terreno -- Capítulo X do livro A Arte da Guerra

    Quem conhece a si mesmo e conhece o inimigo, pode garantir a vitória; quem conhece o tempo e o terreno, a alcançará de modo absoluto.
    É, o inimigo não ocupou o terreno inteiramente. Vou seguir! - via Alemarcolino's Weblog 
    Então, o capítulo X d'A Arte da Guerra até que começa bem. O título do bicho tem tudo a ver com os tipos de terrenos que recebem uma classificação de Sun Tzu:
    1. Acessível, quando é fácil se deslocar
    2. Tortuoso, quando é fácil de sair, mas difícil de entrar
    3. Indeciso, quando é desvantajoso para ambos;
    4. Apertado, quando é estreito
    5. Acidentado, quando é ruim
    6. Distante, quando é largo
    Sun Tzu também trata esta classificação como as "seis condições sobre os terrenos", que devem ser examinadas com cuidado pelo general. Diz ainda como se portar em cada um destes terrenos:
    • No acessível, a fim de se obter vantagem sobre as linhas do inimigo, assumir posição nele antes do adversário, na parte alta e ensolarada
    • No tortuoso, simplesmente evitá-lo, pois apesar de ser possível vencer o inimigo "com um simples golpe", caso ele esteja despreparado, seu exército estará em perigo, caso não vença
    • No indeciso, deve-se recusar vantagens oferecidas pelo inimigo, pois tratam-se de armadilhas; "retire-se, atraia-o, e então ataque"
    • No apertado, ocupá-lo todo, se chegar primeiro; caso contrário, não seguir o inimigo, a não ser que ele não o ocupe inteiramente
    • No acidentado, se o inimigo ainda não tiver ocupado o lugar mais alto e ensolarado, é o que se deve fazer, caso contrário, retirar-se e não segui-lo
    • No distante, não é favorável lutar, nem atacar o inimigo, caso suas forças sejam equivalentes
    Ainda sobre os terrenos, Sun Tzu deixa clara a necessidade de se dominar o assunto:
    A conformação do terreno é de vital importância na batalha. Estude o inimigo, meça corretamente as distâncias, avalie as dificuldades e perigos. Quem faz esses cálculos vence; quem não faz, perde.
    O bom general e as seis condições
    Claro que o estilo Sun Tzu de literatura não permite que, num capítulo intitulado "O Terreno", o único assunto abordado seja este. Como sempre, ele dá um jeitinho de falar de outras coisas necessárias ao cabedal do "bom general", com o perdão da rima inapropriada.
    Engata, então, na sequência, seis condições que devem ser atentamente estudadas e que levam um general à derrota. Elas dizem respeito a:
    1. Diferenças de força significativas entre os exércitos
    2. Soldados fortes e oficiais fracos (insubordinação)
    3. Oficiais corajosos e soldados fracos (exército preguiçoso)
    4. Oficiais motivados por raiva e soldados inconsequentes (exército negligente)
    5. General fraco, sem moral e com regras confusas (exército confuso)
    6. General imprevidente, que não se prepara devidamente para a batalha (derrota)
    Adicionalmente reflete sobre o relacionamento do general com os próprios soldados e sobre as chances de vitória baseadas em determinados conhecimentos (vulnerabilidade do inimigo, capacidade das próprias tropas, terreno e leis da guerra). Também retoma outro tema já tratado anteriormente: a ideia de, nos assuntos de guerra, ignorar as determinações do governante:
    Quando as leis da guerra apontam para a vitória, conquiste-a, mesmo que o governante não autorize. Quando as leis da guerra indicam a derrota, não o faça, mesmo que o governante tenha ordenado.
    Avançar sem desejar glória, recuar sem temer os castigos, proteger o povo, cuidar do soberano. Esta parece ser a "joia da coroa", em se tratando de generais. Desde que, obviamente, se tenha noção do que está acontecendo, capicci?


    Texto anterior - Sobre a Movimentação -- Capítulo IX do livro A Arte da Guerra

    sábado, 8 de junho de 2013

    Sobre a Movimentação -- Capítulo IX do livro A Arte da Guerra

    Um exército deve escolher lugares altos, evitar os baixos, valorizar a luz e fugir da sombra.
    Yang Tze, ou Chang Jiang, um dos maiores rios da China e cenário de batalhas épicas na aniguidade
    Ah, também é bom saber atravessar rios, viu? -- via Olhar das Montanhas
    Confesso que às vezes tem que se esforçar um pouco mais para entender o Sun Tzu. O cara vem e escreve um capítulo com o nome "Manobras" e, dois capítulos depois, me aparece com um chamado "Sobre a movimentação"! Por que não faz um só, se as duas coisas são quase a mesma coisa?

    Obviamente que pra bem responder a esta pergunta é necessário conhecer a fundo dois temas: 1) a arte da guerra propriamente dita; e 2) o id, o ego e o superego de um chinês de 2500 anos atrás. Nenhum do dois temas me é estranho, mas estou longe (muito longe mesmo) de ser uma sumidade em qualquer um deles.

    No entanto, fica-me a impressão de que as "manobras" enfatizam mais a organização do exército (mesmo no campo de batalha) e de que as "movimentações" dizem mais respeito ao posicionamento do exército frente ao inimigo e à topografia. Se eu estiver errado, por favor, deixe-me saber. Não sem antes terminar de ler este post e o que trata de manobras, claro.

    As condições básicas
    Pois bem, Sun Tzu começa o capítulo destacando 4 condições básicas que é necessário conhecer para se dar bem na peleja. Todas tem a ver com o que escrevi ali em cima (posicionamento do exército em relação à topografia e ao inimigo) e, segundo o filósofo, o mítico Imperador Amarelo não apenas as conhecia, mas também as empregou para vencer os Quatro Soberanos dos Tempos Antigos. São elas:
    1. Quando nas montanhas, ficar no alto, a favor da luz-- afastar-se de vales, precipícios, becos e desfiladeiros e usá-los contra os inimigos, forçando-os a ficarem de costas para o perigo
    2. Quando na água, não combater ali perto, permanecer em lugar elevado e a favor da luz -- também não atravessar se houver torrentes e correntezas fortes ou redemoinhos ("poços celestes")
    3. Quando no pântano, atravessá-lo o quanto antes e, caso atacado, ficar junto à vegetação rasteira, de costas para as árvores -- terrenos pantanosos são propícios para emboscadas e espionagem
    4. Quando em um terreno plano, buscar espaço para manobrar e, para proteger a vanguarda,  manter lugares altos atrás e à direita
    Após destrinchar esses conceitos, Sun Tzu passa a discorrer sobre o significado de determinados comportamento do ambiente e dos inimigos. Do ambiente, é dito:
    Quando as árvores se mexem, é porque o inimigo está marchando. Muitas marcas na vegetação rala podem ser uma armadilha ou pista falsa.
    Pássaros voando significam emboscada; animais amedrontados, que uma tropa aguarda na tocaia; poeira densa no ar, carros que se aproximam; poeira baixa, soldados marchando; fumaça indica fogueiras e acampamentos; nuvens de pó suave significam o mesmo.
    Conhece o inimigo e a ti mesmo
    Sobre o inimigo, inúmeros comportamentos são avaliados, com seus respectivos significados. Se ele
    • está perto, mas calmo -- está forte e preparado
    • chama para a luta de longe -- está em posição favorável
    • envia emissários: com palavras doces e humildes -- vai atacar; ríspidos e agressivos -- vai fugir; com justificativas razoáveis -- quer negociar
    • pede paz sem proposta ou acerto -- é traição
    • posiciona carros ligeiros nos flancos -- formam a frente de batalha
    • dispõe os carros em filas de combate -- espera reforços
    • tem metade das forças andando de um lado para o outro, avançando e recuando -- atrai para uma armadilha
    Note que os comportamentos acima, aos quais chamarei "ativos", são intencionais e buscam provocar uma ação que resultará em vantagem ao inimigo. Há também uma série de comportamentos que podemos chamar de "passivos" e que, se bem lidos, resultam em desvantagem para eles.

    Ao ler tais comportamentos, é possível saber se eles (os inimigos) estão famintos ou sedentos, extenuados ou amedrontados, cansados, desorganizados, desesperados, no limite das forças, indisciplinados, se abandonaram o acampamento ou se o general não mais possui autoridade ou a lealdade dos soldados.

    Seguindo a velha e boa máxima do conheça o inimigo e a si mesmo, Sun Tzu finaliza o capítulo apresentando algumas atitudes que devem ser ponderadas no que diz respeito ao relacionamento do general com as tropas. Elas tem a ver com castigo e lealdade; obediência e (in)submissão; cortesia e "ardor marcial". Tudo isso ligado, direta ou indiretamente, à clareza, sentido, confiabilidade e justiça das ordens, como podemos verificar no parágrafo derradeiro:
    Quando as ordens são confiáveis e justas, elas serão cumpridas, estando o líder e a tropa em comum acordo.
    Como sempre, a ideia de que a inteligência (ou estratégia) deve prevalecer sobre a força bruta (ou pelo menos sustentá-la) perpassa todo o texto. Pense nisso e comente. Hasta!


    Texto anterior - As Nove Mudanças -- Capítulo VIII do livro A Arte da Guerra

    domingo, 2 de junho de 2013

    As Nove Mudanças -- Capítulo VIII do livro A Arte da Guerra

    Não suponha que o inimigo não virá, esteja pronto para recebê-lo. Torne-se invencível.
    Soldados prestes a desembarcar na Normandia, na 2ª Guerra Mundial, dia D
    Isso é que é turismo de aventura, não acha? -- via Universo da Logística

    Antes de entrar nos "inicialmentes" deste capítulo VIII do livro A Arte da Guerra, é necessário fazer uma breve, brevíssima, consideração a respeito de uma pequena grande mudança que fiz em relação aos comentários do livro. Quando tive a ideia de escrever uma obra literária tendo o Sun Tzu como personagem principal, a primeira coisa que fiz foi comprar o livro.

    Acontece que o livro que comprei é uma tradução da tradução francesa pioneira do missionário jesuíta francês Amiot. No meio de minhas pesquisas descobri que há um sério problema com esta tradução (a francesa, não a brasileira): aparentemente, o padre a "enriqueceu" utilizando-se de comentários enxertados no meio do texto original, como se o próprio Sun Tzu os tivesse escrito.

    Resolvi então comprar uma edição mais fiel ao texto antigo, agora traduzida diretamente do chinês para o português pelo sinólogo André Bueno. Resultado: um texto muito mais direto, muito mais simples, muito mais enxuto, sem muitos rodeios e explicações. Muito mais chinês e ancestral!

    Não me parece, no entanto, que o artifício de Amiot tenha desvirtuado significativamente o texto original. Até, pelo contrário, ajuda a entender melhor algumas ideias que no texto original ficam, para o leigo, incompletas.

    Exemplo claro está neste capítulo VIII mesmo, que abre, na tradução de Bueno, sentenciando a "regra geral para o início das operações militares", que consiste "na convocação de um general pelo seu governante". Ponto! Imediatamente depois, sem mais nem menos, aparece mais uma relação de regras importantes:
    1. Não acampe em terreno baixo
    2. Seja diplomático na fronteira; faça aliados
    3. Não fique em terra ruim
    4. Em terra inóspita, planeje
    5. Em campo de morte, lute
    6. Algumas vias não devem ser percorridas
    7. Alguns exércitos não devem ser atacados
    8. Algumas cidades não devem ser sitiadas
    9. Alguns terrenos não devem ser disputados
    Tudo mais ou menos fácil de entender, exceto pelos itens 3 e 5. Afinal, o que cargas d'água vem a ser um "campo ruim"? Pior, qual será mesmo o significado de "campo de morte"? Nada, absolutamente nenhuma explicação nos é fornecida no texto original.

    Já a tradução francesa, didaticamente, nos ensina:
    Encontrando-te em um campo de morte, busca o combate. Chamo de lugar de morte esses ermos onde não há nenhum recurso, onde se definha inelutavelmente pela insalubridade do ar, onde as provisões minguam sem esperança de serem repostas; onde as doenças começam a grassar no exército, prenunciando grandes flagelos. Se te encontrares em tais circunstâncias, precipita-te em deflagrar o combate. Asseguro-te que tuas tropas se mostrarão intrépidas no combate. Morrer pela mão do inimigo lhes parecerá suave em comparação com todos os males queas atormentam.
    E pelas leituras que já fiz é isso mesmo. Um pouco melhor, não? Ainda assim, mesmo achando que o sentido geral do antigo texto de Sun Tzu permanece refletido no texto de Amiot, daqui pra frente tudo vai ser diferente. Melhor dizendo, vamos fazer os comentários exclusivamente sobre o texto traduzido por André Bueno. Aliás, já começamos a trabalhar assim desde o texto anterior (Manobras -- capítulo VII).

    Desobediência civil made in China
    Isto posto, continuemos, pois Sun Tzu disse: "existem ordens vindas do soberano que não devem ser obedecidas". E o restante do curto capítulo ajuda-nos a entender este gesto de "desobediência civil".

    Pra começar, ele acrescenta que "os generais que conhecem as nove mudanças sabem como empregar suas tropas". As palavras-chave aqui são "conhecem" e "sabem". Se os generais são bons oficiais, entendem do riscado, conseguem tirar proveito do terreno e das vantagens, eventualmente receberá ordens do soberano que ele sabe que serão desastrosas, que levarão suas tropas à ruína. Nestes casos, sobra para o general ligar o "foda-se" e fazer o que ele sabe que tem que ser feito, mesmo que a consequência seja uma cabeça a menos no reino.

    Isto seria, vamos dizer assim, o cúmulo do patriotismo. É como se você fosse o Capitão América Jack Flag e ignorasse uma ordem do Barack Obama porque tem certeza de que o que você planeja fazer é o que realmente vai salvar os EUA de mais uma ameaça inter(urbana/nacional/planetária/estelar/galática).

    Mais umas dicas aqui e ali, e o capítulo é finalizado com as cinco características que, para um general, são fatais e "provocarão desastres nas campanhas":
    1. Se temerário, morre logo.
    2. Se covarde, é capturado.
    3. Se exaltado , será humilhado.
    4. Se moralista, será difamado.
    5. Se bondoso, sofrerá.
    A boa e velha sabedoria relacionada ao equilíbrio das coisas. Como costuma dizer meu pai, nem muito doce, nem muito azedo.

    Inté!


    Texto anterior - Manobras - Capítulo VII do livro A Arte da Guerra

    domingo, 7 de abril de 2013

    Manobras - Capítulo VII do livro A Arte da Guerra

    Pondere a situação; depois mova-se.
    Manobrar no campo de batalha é (também) se comunicar -- via China History Forum
    Assim como capítulos anteriores, e também como os próximos seis capítulos d'A Arte da Guerra, de maneira geral, este capítulo VII d'A Arte da Guerra trata da ação propriamente dita; da "hora do pau", por assim dizer; dos momentos decisivos no campo de batalha. Seu título não deixa sobrar muita dúvida a esse respeito. E a primeira frase, logo após o já famoso "Sun Tzu disse", também diz a que veio o texto:
    "a regra geral é de que um exército é mobilizado quando um governante convoca o general para uma missão. Ele recebe suas ordens, reúne as tropas e as mobiliza no quartel". 
    Ok, ok, ainda não é ação, mas já recebemos as ordens para nos prepararmos para ela, certo? Então vem o tradicional desfile de indicações sobre o que deve ser feito a seguir. E aí sim já estamos a falar de ação, não sem antes sermos alertados de que
    "nada é mais difícil do que o combate armado"
    e talvez por isso mesmo seja dada atenção especial à arte de manobrar um exército. Tanto assim que a expressão "lei das manobras" é utilizada em três momentos ao  longo do capítulo.

    Sobre a lei das manobras
    E o que diz essa lei? Basicamente, que é necessário dominar a arte de se movimentar, de tal maneira que se possa aproveitar ao máximo as vantagens de dominar tempo e distância, bem como evitar de todas as maneiras os perigos de se realizarem manobras equivocadas.

    É necessário saber quando movimentar todo o exército ou apenas parte dele; o quão rápido ou devagar movimentar-se e até discernir apropriadamente os períodos e duração de marchas. Naturalmente, para bem manobrar os homens, três coisas são fundamentais: 1)  ter conhecimento do terreno; 2) bem utilizar a arte do engodo; e 3) mandar ver nos métodos de comunicação para o campo de batalha.

    Esta última merece inclusive a referência, por parte de Sun Tzu, a trecho de um livro da época intitulado Livro da Ordem Militar. Disse Sun Tzu:
    "Não se ouvem as palavras durante as batalhas, por isso existem os tambores e os gongos. É difícil enxergar os outros, por isso existem as bandeiras e os estandartes."
    E você achando que aquelas bandeiras e estandartes no Game of Thrones eram só enfeites, hein! Na verdade, além de servirem como veículo de propaganda mesmo (fixando visualmente a marca dos reis e senhores feudais na cabeça do populacho por onde quer que os exércitos passassem), elas serviam como um meio de comunicação crucial no calor das batalhas. Como? Até agora faço muito pouca ideia, mas o bom e velho Sun Tzu nos dá algumas dicas valiosas:
    "Tambores, gongos, bandeiras e estandartes servem para concentrar a atenção das tropas. Com elas os corajosos não atacam sozinhos e nem os fracos fogem. Essa é a regra para dominar as tropas"
    E:
    "Em batalhas noturnas, use muitas fogueiras e tambores; em batalhas diurnas, use muitas bandeiras e estandartes. Desse modo, pode-se controlar a audição e a visão das tropas"
    O cara prossegue a discorrer sobre a necessidade de controlar as energias, o coração, a força e as circunstâncias (sempre elas) e, por fim, nos brinda com mais um checklist, desta vez sobre situações relacionadas ao inimigo. Ipsis literis:
    1. Se ele foge, não o persiga;
    2. Não ataque suas tropas de elite;
    3. Não prove de sua comida;
    4. Não detenha um exército de volta para casa;
    5. Deixe sempre uma saída de fuga;
    6. Não acosse um inimigo desesperado.
    Já consigo entender alguns porquês deste checklist, mas também já escrevi demais e, em algum futuro post, certamente trataremos disso. Hasta!


    Texto anterior - Do Cheio e do Vazio (II) -- Capítulo VI do livro A Arte da Guerra (continuação)


    sábado, 26 de maio de 2012

    Do Cheio e do Vazio (II) -- Capítulo VI do livro A Arte da Guerra (continuação)

    O exemplo dos valentes é suficiente para encorajar os covardes. Estes seguem facilmente o caminho apontado, mas não poderiam por si mesmos descobri-lo.
    Como dizia Sun Tzu, tamanho não é documento -- via Revista Época


    Após uma pausa para descanso, tratando (ainda) de uma dor chata e insana nas mãos (é mole?) e trabalhando muito no meu day job (de verdade!), estou de volta às publicações de textos sobre Sun TzuA Arte da Guerra e o livro que espero (ainda) publicar no próximo ano.

    Confesso que, além desses motivos acima, aproveitei para ler os dois primeiros livros das Crônicas de Gelo e Fogo – veja o que escrevi sobre duas passagens da série produzida pela HBO aqui (sim, tem a ver com Sun Tzu e A Arte da Guerra). E por falar nisso, vamos logo ao que interessa, né?

    Exemplos complementares (ou, uns seis mandamentos)
    No texto anterior falei sobre o conceito básico por trás do capítulo VI do livro – Do Cheio e do Vazio. Agora vou apenas complementar o que escrevi então, acrescentando conselhos complementares (não meus, do cara) ao tema central, que (ok, você tá com preguiça de ler o texto anterior) gira em torno de controlar e direcionar as ações do inimigo tanto quanto as suas próprias. Bem, na verdade, a questão toda se resume a:
    • Não dividir o próprio exército (e provocar isso no inimigo);
    • (Por conseqüência) deve-se concentrar as principais forças do mesmo lado, (e o que se quer dizer com isso é que, se a intenção for, por exemplo, atacar pela ala esquerda, é necessário ali dispor o que há de melhor nas tropas);
    • Conhecer a fundo não apenas o local, mas também o dia, a hora, o momento exato do combate;
    • Estar informado a respeito de cada passo do inimigo (ah, Varys e Mindinho!);
    • Posicionar-se à distância apropriada do inimigo no dia determinado para o combate (não menos que algumas léguas, não mais que dez léguas inteiras);
    • Não procurar ter um exército muito numeroso
    Sobre a grandeza do exército, além de explicar que um pequeno exército bem disciplinado e sob o comando de um bom general é invencível, exemplifica sua afirmação citando a histórica contenda entre os reinos de Yue, com um exército numeroso (e derrotado), e de Wu, com poucas tropas (mas, vencedor). A esse respeito, eu perguntaria, ainda, se alguém aí se lembra da guerrilha cubana, Vietnã e outras querelas mais recentes em que o "mais fraco" acabou vencendo.

    Por fim, o capítulo é encerrado com uma referência a uma questão central d’A Arte da Guerra: a necessidade de se adaptar às circunstâncias“um exército bem comandado e bem disciplinado [apresenta-se] multifacetado, em função das circunstâncias e dos inimigos”, diz Sun Tzu. Também escrevi um texto sobre isso aqui neste mesmo blog (e logo logo voltarei a tratar deste assunto).

    Por enquanto, ficamos por aqui.

    Inté e tudibão.


    Texto anterior - Do Cheio e do Vazio (I) -- Capítulo VI do livro A Arte da Guerra


    domingo, 1 de abril de 2012

    Do Cheio e do Vazio (I) -- Capítulo VI do livro A Arte da Guerra

    A grande sabedoria é obter do adversário tudo o que desejas, fazendo com que seus atos redundem em benefícios para ti.

    Você conseguiria tratar assim seu inimigo? Sun Tzu diz que deveria. -- via Cia dos Ventos

    Não se deixe confundir pelo título. Apesar de parecer tanto quanto metafísico, Do Cheio e do Vazio, o sexto capítulo do livro discorre mesmo, principalmente, sobre o comportamento do general perante o inimigo -- e, por tabela, sobre como infernizar a vida dele.

    Ocupe o terreno, controle os movimentos do inimigo, imponha a ele o combate, faça-o ir aonde for melhor para você, atrapalhe sua vida, vigie-o atentamente, utilize-se do elemento surpresa, cuidado com os inimigos nas trincheiras e por aí vai. Não é de se admirar que, mais uma vez, Sun Tzu nos lembre da importância da dissimulação. Muitos destes comandos aí em cima dependem de saber fazer com que o inimigo veja o que não é e pense estar fazendo a coisa certa, quando, na verdade, está a caminho da derrocada.

    Este também é um capítulo de conselhos práticos, em contraste franco com a também incensada obra de Miyamoto Musashi, O Livro dos Cinco Anéis, sobre a qual já comentei neste mesmo blog. De maneira geral, o espírito pode ser resumido nesta frase do terceiro parágrafo:

    Um grande general não é arrastado ao combate; ao contrário, sabe impô-lo ao inimigo.

    Para tanto, deve:

    1. escolher criteriosamente o terreno do campo de batalha, não permitindo que o inimigo tome a dianteira
    2. ter a habilidade necessária para controlar os movimentos do inimigo (e escolher bem o terreno já seria um bom início de conversa)
    3. fazer com que ele, o inimigo, vá exatamente aonde se quer, utilizando-se de subterfúgios como facilitar ou dificultar seus movimentos (torne fácil para ele ir aonde você quer, e torne difícil seu caminho em direção a lugares que não seria bom para você que ele ocupasse) 
    4. deixar que o inimigo se movimente primeiro, mas sempre tomando atitudes que o deixem alarmado, de modo a induzi-lo a cometer imprudências que poderão ser proveitosas

    Note bem a importância que ele dá ao controle que se deve ter não apenas das próprias ações, mas também de todo e qualquer passo do inimigo. E não apenas no sentido de saber o que os caras estão fazendo, mas de induzi-los a fazer o que queremos que eles façam, inclusive e talvez principalmente, ao erro.

    No fim das contas, o título parece adequado (apesar de meio metafísico), já que, de certa forma, o capítulo é sobre o preenchimento dos espaços -- tanto físicos, no terreno, quanto psicológicos, na mente das próprias tropas e, especialmente, das hostes do inimigo.

    Em resumo, uma parte significativa deste capítulo é dedicada a transformar o leitor em um mestre titeriteiro. E o fantoche não poderia ser outro: o inimigo. Mas tem mais. No entanto, vamos deixar para o próximo post, que este já está meio grandinho.

    Nos vemos no futuro.



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     - Do Confronto Direto e Indireto -- Capítulo V do livro A Arte da Guerra

    quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

    Do Confronto Direto e Indireto -- Capítulo V do livro A Arte da Guerra

    Pela palavra "força" não se deve entender "dominação", mas sim a faculdade que permite que se transforme em ato tudo aquilo que se propõe.
    Nosso herói estria mais para Darth Vader ou Luke Skywalker! - via A Mosca Branca

    Pessoas, pessoas, pessoas! O fato de eu estar demorando para atualizar o blog não significa que o projeto do livro está parado. Tenho estado a pesquisar e ler material histórico no qual tenho encontrado muitas coisas interessantíssimas sobre a China (que ainda não era China) de Sun Tzu. Aliás, estas pesquisas me fortaleceram a impressão de que, desde sempre, a cultura chinesa é de uma riqueza impressionante -- muito além dos velhos e surrados clichês que vemos por aí.

    Em breve devo relatar algo destas pesquisas. Enquanto isso, e já entrando no assunto deste post, devo dizer que de certa forma este capítulo é uma continuação, ou um complemento, do capítulo anterior, Da Arte de Manobrar as Tropas.  Entende-se isso tanto ao analisar a parte inicial -- quando o assunto é comando das tropas --, quanto ao continuar a leitura -- quando Sun Tzu fala, efetivamente, a respeito do confronto direto e indireto.

    Quanto ao comando das tropas, ele basicamente ressalta a necessidade de organização, ignorando o tamanho das tropas. Pra ele, tanto faz comandar muitos ou poucos, seria tudo a mesma coisa, desde que se tenha organização. Aliás, já vi esse conceito n'O Livro dos Cinco Anéis, de Musashi.

    Ainda sobre comandar as tropas, há um conselho que deixaria Dale Carnegie e todos os gurus pós-modernos da administração e do networking orgulhosos: lembrar o nome de todos os oficiais e subalternos. Claro que não era só por ser "bonzinho" e fazer amigos e influenciar pessoas. A ideia é não apenas lembrar os nomes, mas saber sore suas habilidades e capacidades, de modo a melhor aproveitar o potencial de cada um quando for necessário.

    A roda em movimento
    Já quando ele está a falar de confronto direto e indireto, na verdade quer também explicitar a existência de forças complementares que, quando combinadas, constituem a certeza de sustentar o ataques inimigos sem sofrer derrotas. Diz ele, ainda pegando uma rebarba do assunto inicial:
    Ataca a descoberto, mas vence em sigilo. Eis, em poucas palavras, em que consiste a habilidade e a perfeição do comando das tropas.
    Luz e trevas, aparente e secreto, céu e terra, sol e lua, Batman e Robin. Sun Tzu utiliza essas metáforas (exceto a última) para enfatizar a necessidade não apenas de lutar abertamente contra qualquer inimigo (atacar a descoberto), pois isso apenas não garantiria a vitória. Seria necessário também utilizar-se de ações fugidias, como a espionagem, a dissimulação e a sabotagem, para, junto com os ataques diretos, obter a almejada vitória (vence em sigilo).

    Embora destaque somente essas duas espécies de forças (escolha a dupla que melhor lhe convém, ou invente uma -- a ideia é a complementaridade), o chinês afirma que sua combinação é ilimitada e que, na prática, assemelham-se a uma cadeia de operações interligadas. Partindo para um exemplo menos misterioso, ele ensina que, na arte militar,
    cada operação particular tem partes que exigem a luz do dia e outras que pedem as trevas do segredo. Não posso determiná-las de antemão. Só as circunstâncias podem ditá-las.
    E mais uma vez (não pela última) nos deparamos com o cara falando das tais circunstâncias. Mais adiante, inclusive, neste mesmo capítulo V, ele traz o assunto à baila novamente, afirmando que um hábil comandante busca a vitória com base nas circunstâncias.

    Da arte de comandar e de manipular o inimigo
    Além deste assunto central, o capítulo ainda fala de outros dois pontos que aparentemente não tem muito a ver com o tema. Mas, creio, só aparentemente. O primeiro é mais uma lista, desta vez sobre os que "possuem verdadeiramente a arte de comandar". De acordo com o texto são os que:

    • souberam e sabem potencializar sua força
    • adquiriram uma autoridade ilimitada
    • não se deixam abater por nenhum acontecimento
    • nunca agem com precipitação
    • se conduzem com sangue frio
    • e agem sempre com a rapidez fruto de habilidade + experiência

    O segundo ponto é algo tão trivial quanto pode ser "a arte de manipular os deslocamentos do inimigo". E aqui, mais uma vez, vale reproduzir o trecho, ipsis literis:
    Aqueles que dominam essa arte admirável dispõem de ascendência sobre o próprio exército, de tal forma que manipulam o inimigo sempre que julgarem apropriado (...) dão e o inimigo recebe; abandonam e o inimigo recolhe. Estão prestes a tudo. Aproveitam-se de todas as circunstâncias.
    Talvez, juntando tudo isso, a gente consiga entender porque os Jedis viviam dizendo aquilo que eles viviam dizendo. E que a força esteja com você!


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     - Século XXI, mundos altamente conectados e a arte do (des)encontro